Quem construiu as pirâmides?

O texto a seguir é o prólogo de Matrix Espiritual, novo livro que estou escrevendo.

Nesta obra, investigo como retiramos do humano tudo aquilo que havia de mais extraordinário, entregamos sua autoria a deuses, mestres, seres superiores e extraterrestres e, depois, passamos a obedecer àquilo que nós mesmos colocamos acima de nós.

Comecemos pelas pirâmides.


Quem construiu as pirâmides?

Por que preferimos acreditar nos extraterrestres a reconhecer o extraordinário humano

 

Uma pirâmide é uma insolência de pedra.

Ela não pede licença à paisagem, não tenta parecer modesta, não se desculpa por existir. Simplesmente está lá, há milhares de anos, ocupando o deserto com a serenidade irritante de quem sabe alguma coisa que você não sabe.

Você olha para aqueles blocos imensos, para a precisão dos encaixes, para a orientação da construção, para a geometria, para a escala, para o tempo em que tudo aquilo foi feito, e alguma coisa começa a incomodar. Não é apenas admiração. Admiração a gente resolve com uma fotografia, um documentário, uma visita guiada, uma miniatura comprada na lojinha. O que a pirâmide produz é um tipo mais profundo de desconforto: ela parece não caber na ideia de humanidade que aprendemos a carregar.

Não pode ter sido a gente.

Quer dizer, gente houve por ali, evidentemente. Alguém buscou as pedras, alguém preparou o terreno, alguém transportou os blocos, alguém calculou os ângulos, alguém se feriu, alguém morreu, alguém deu ordens, alguém fingiu que entendeu as ordens, alguém provavelmente reclamou do responsável pela obra e alguém, com toda certeza, achou que aquilo jamais ficaria pronto. Tudo muito humano. O problema é o resultado.

O resultado parece grande demais.

Então chega a nave.

Ela atravessa o espaço, vence distâncias que sequer conseguimos imaginar, encontra este pequeno planeta azul no meio da escuridão cósmica, entra na atmosfera, localiza o vale do Nilo e pousa discretamente para ensinar seres humanos a empilhar pedras. Uma civilização capaz de viajar entre as estrelas decidiu que sua grande contribuição ao universo seria prestar consultoria para a construção civil egípcia.

E a gente acha razoável.

Mais razoável, pelo menos, do que aceitar que seres humanos tenham conseguido fazer aquilo.

Perceba que não estou dizendo que extraterrestres não existam. Seria uma afirmação tão pretensiosa quanto declarar que um oceano inteiro está vazio depois de examinar um copo de água. Num universo com centenas de bilhões de galáxias, cada uma com bilhões de estrelas, a ideia de que a vida tenha acontecido uma única vez e justamente aqui exige, no mínimo, uma autoestima planetária considerável. Também não estou dizendo que conhecemos tudo sobre as pirâmides, Stonehenge, as linhas de Nazca, as antigas cidades da Mesopotâmia ou qualquer outra realização que tenha atravessado milênios carregando perguntas. O desconhecido existe. Ainda bem. Um universo completamente explicado seria uma espécie de repartição pública cósmica: tudo catalogado, protocolado, carimbado e sem absolutamente nada que justificasse levantar da cama pela manhã.

O mistério não é o problema.

O problema começa quando usamos o mistério para expulsar o humano da própria história.

Diante daquilo que compreendemos, aceitamos a autoria humana. Mas é só nos colocarmos diante do que nos surpreende, que logo convocamos os deuses, os seres estelares, as civilizações desaparecidas, as tecnologias secretas, as raças superiores, os mestres de outros planos ou qualquer inteligência suficientemente distante para receber o crédito sem precisar apresentar documento, ferramenta, projeto arquitetônico ou testemunha.

É uma operação extraordinária. A obra está aqui. Seus autores estão mortos. Não conhecemos inteiramente o processo. Logo, os autores não podem ter sido humanos.

Se aplicássemos esse mesmo raciocínio a tudo, Shakespeare teria sido psicografado por um dramaturgo de Sírius, Michelangelo teria recebido um download escultórico de Andrômeda, Bach seria um médium musical dos querubins e Santos Dumont, convenhamos, jamais teria feito um avião sem o auxílio discreto de alguma federação galáctica preocupada com o transporte aéreo brasileiro.

Não fazemos isso com todas as obras, claro. Fazemos principalmente com aquelas cuja grandeza ultrapassa a imagem rebaixada que construímos de nós mesmos.

Stonehenge não pode ter sido erguido apenas por pessoas, porque aquelas pedras são imensas, estão organizadas segundo conhecimentos que não esperamos encontrar naquele tempo e foram transportadas de lugares distantes. As linhas de Nazca não podem ter sido feitas por seres humanos porque só podem ser vistas inteiramente de cima, como se ninguém jamais tivesse concebido uma forma antes de poder observá-la do ângulo ideal. Os sumérios sabiam coisas demais. Os maias calculavam demais. Povos antigos observavam o céu com uma precisão inconveniente. Ergueram templos alinhados com estrelas, organizaram calendários, acompanharam ciclos astronômicos, criaram sistemas de escrita, desenvolveram técnicas, preservaram memórias, levantaram cidades onde os nossos livros escolares preferiam encontrar apenas homens primitivos ocupados demais tentando não ser comidos por algum animal.

Toda vez que o passado demonstra inteligência, corremos o risco de nos sentir pessoalmente enganados.

Não era para eles saberem.

Não daquele jeito. Não tão cedo. Não sem computador, satélite, guindaste hidráulico, concreto armado, aplicativo de produtividade e uma reunião de alinhamento na segunda-feira às nove.

Chamamos de impossível aquilo que apenas não sabemos mais fazer. Ou aquilo que conseguimos fazer, mas já não sabemos imaginar como poderia ter sido feito por pessoas organizadas de outra maneira, vivendo dentro de outro mundo, acumulando conhecimentos por gerações, entregando a própria vida a uma obra cujo término talvez jamais vissem.

Nós nos tornamos tão dependentes da figura do indivíduo que, quando nenhum indivíduo poderia realizar algo sozinho, concluímos que a humanidade inteira também não poderia.

E é justamente aí que uma nave começa a parecer mais plausível do que uma multidão.

Uma nave possui piloto, comando, intenção, tecnologia concentrada, uma inteligência identificável que chega de fora e resolve o problema. Uma multidão humana é muito mais difícil de enxergar. Nela há pedreiros, astrônomos, sacerdotes, cozinheiros, artesãos, navegadores, escribas, agricultores, carregadores, planejadores, pessoas que conhecem as cheias do rio, pessoas que sabem cortar uma pedra, pessoas que aprenderam a observar a sombra, pessoas que ouviram uma história de seus avós, pessoas que aperfeiçoaram um gesto repetido durante séculos, pessoas que erraram, pessoas que corrigiram os erros anteriores e pessoas que morreram deixando para outras uma parte daquilo que sabiam.

Heródoto, escrevendo cerca de dois mil anos depois da construção da Grande Pirâmide, registrou relatos sobre trabalhadores retirando pedras das pedreiras a leste do Nilo, levando-as até o rio, atravessando-as em embarcações e entregando-as a outras equipes responsáveis por fazê-las chegar ao planalto de Gizé. Seu relato não é uma filmagem da obra e seus números não precisam ser recebidos como se ele tivesse trabalhado no departamento de pessoal do faraó, mas existe algo curioso nele: Heródoto fala de pedreiras, barcos, estradas, equipes e organização do trabalho. Nós conseguimos ler tudo isso e continuar perguntando onde pousaram as naves.

E nem dependemos apenas dele. Entre os papiros encontrados em Wadi el-Jarf está o diário de Merer, um inspetor que comandava uma equipe durante o reinado de Quéops. Merer não escreveu sobre deuses descendo do céu, equipamentos antigravitacionais ou engenheiros vindos de Órion. Escreveu sobre dias de trabalho, deslocamentos, abastecimento e o transporte, por canais e pelo Nilo, do calcário branco de Tura até o canteiro da Grande Pirâmide. É quase decepcionante. Encontramos o diário de um homem que participou da logística da obra e, ainda assim, o depoimento de um trabalhador egípcio parece exercer menos fascínio do que a opinião de alguém que viu um documentário sobre Anunnaki às duas da manhã.

A própria paisagem que hoje usamos para provar a impossibilidade também nos engana. Olhamos para as pirâmides cercadas por areia, afastadas do Nilo atual, e imaginamos homens arrastando cada bloco através de um deserto interminável, porque o cenário diante dos nossos olhos parece ter permanecido imóvel durante quatro mil e quinhentos anos. Só que rios também mudam de lugar. Pesquisas recentes identificaram vestígios de um grande braço do Nilo, hoje extinto, correndo junto à cadeia de pirâmides entre Lisht e Gizé. Muitas vias que partiam desses monumentos terminavam em templos do vale próximos à antiga margem, provavelmente utilizados como portos para pessoas e materiais. O rio estava muito mais perto. As pedreiras existiam. Os canais existiam. Os barcos existiam. Os trabalhadores deixaram registros. As marcas das ferramentas permaneceram nas pedras. As vilas onde parte dessas pessoas viveu foram encontradas.

Mas a nave continua parecendo uma explicação melhor.

Não porque existam mais evidências de extraterrestres. Justamente porque ela nos poupa de enfrentar a evidência mais perturbadora de todas: seres humanos comuns, organizados durante muito tempo, podem realizar coisas que nenhum deles seria capaz sequer de imaginar sozinho.

Ninguém ali possui a pirâmide inteira dentro da cabeça.

A pirâmide existe entre elas.

Só que nós aprendemos a procurar a inteligência dentro de alguém. Um faraó. Um arquiteto. Um gênio. Um deus. Um extraterrestre. Precisamos de uma cabeça para colocar sobre a obra, porque não sabemos reconhecer uma inteligência que não tenha cabeça, um conhecimento que exista espalhado entre milhares de pessoas, uma autoria que atravesse gerações sem pertencer inteiramente a nenhuma delas.

Quando não encontramos o autor individual capaz de explicar a realização, preferimos inventar um autor sobre-humano a admitir que talvez estejamos procurando a autoria no lugar errado.

Isso não acontece apenas com pedras.

Uma pessoa compõe uma música que parece maior do que ela. Pinta um quadro e, diante da obra terminada, diz que não sabe de onde aquilo veio. Um escritor relê uma passagem escrita anos antes e já não se reconhece capaz de tê-la produzido. Dois cientistas chegam a descobertas semelhantes em lugares diferentes. Uma ideia aparece simultaneamente em cidades cujos habitantes jamais se encontraram. Alguém sonha com uma imagem que depois se torna livro, invenção, teoria, movimento ou canção. Uma mulher entra num estado de consciência incomum e volta dizendo que recebeu alguma coisa. Um médium escreve. Um artista vê. Um inventor intui. Um matemático acorda com a solução de um problema que não conseguira resolver desperto.

E então olhamos para tudo isso com a mesma dificuldade com que olhamos para as pirâmides.

Se é maior do que o indivíduo, precisa ter vindo de fora do humano.

O detalhe é que nenhuma palavra usada para escrever um livro foi inventada pelo escritor. Nenhuma nota musical pertence ao compositor. Nenhum cientista criou sozinho a matemática, os instrumentos, os laboratórios, as perguntas e os conhecimentos que tornaram sua descoberta possível. Nenhum pintor inventou as cores, o gesto, a perspectiva, os símbolos, os conflitos, as imagens e os mundos que chegaram até sua mão. Até o sonho mais íntimo é povoado por rostos que vimos, medos que aprendemos, histórias que nos contaram, monstros que herdamos, desejos que alguém despertou e coisas que entraram em nós antes que tivéssemos idade para decidir o que fazer com elas.

Eu mesmo cresci entre extraterrestres e monstros míticos.

Num sábado da minha infância, no centro de Santo André, comprei o primeiro livro de que me lembro ter escolhido para mim: O Minotauro, de Monteiro Lobato. Na minha memória, a cena está misturada ao dia em que fui assistir a E.T., de Steven Spielberg. Não sei mais se comprei o livro antes ou depois do cinema. Sei que voltei daquele sábado carregando um extraterrestre no peito e um monstro de cabeça de touro nas mãos que, diga-se de passagem, habitou pesadelos recorrentes da minha infância me perseguindo com um 666 brilhando na testa. Um vinha das estrelas, o outro vivia num labirinto, ou talvez em algum mundo dantesco. Hoje penso que passei boa parte da vida caminhando entre os dois.

As histórias sobre civilizações desaparecidas, deuses astronautas, Atlântida, Lemúria, Suméria e Anunnaki chegaram cedo até mim, não como uma teoria organizada, mas como chegam quase todas as coisas que realmente nos transformam: por meio de pessoas. Livros, conversas, adultos que sabiam histórias, amigos, tardes em que uma pergunta puxava outra e o mundo conhecido ia ficando pequeno demais. Eu não observava esse universo de fora. Ele me fascinou, organizou parte da minha busca, deu linguagem a experiências que eu não sabia nomear e me conduziu por religiões, ordens iniciáticas, símbolos, ritos, mestres e cosmologias nas quais vivi por décadas.

Por isso este não é um livro escrito por alguém que descobriu a razão e decidiu rir daqueles que ainda se encantam com o mistério. Continuo me encantando. Tenho, inclusive, certa desconfiança de quem perdeu completamente essa capacidade. Uma pessoa que olha o céu numa noite sem nuvens e não sente absolutamente nada talvez esteja bem informada, mas não sei se está prestando atenção.

A questão nunca foi escolher entre mistério e razão.

A questão é por que, diante do mistério, a primeira coisa que sacrificamos é a autoria humana.

Fizemos isso com nossas construções, nossos conhecimentos, nossas experiências espirituais, nossas obras de arte, nossa capacidade de amar, intuir, imaginar e criar. Tudo o que havia de mais extraordinário em nós foi sendo retirado daqui e colocado em algum lugar acima: no céu, nos deuses, nos mestres, nas estrelas, nas dimensões superiores, nas raças mais evoluídas, num passado perdido ou num futuro em que finalmente deixaremos de ser aquilo que somos.

Depois nos ajoelhamos.

Ora, se a sabedoria vem de cima, alguém falará em nome dela. Se o conhecimento pertence aos iniciados, alguém decidirá quando estaremos preparados. Se a humanidade foi criada ou conduzida por seres superiores, alguém se apresentará como seu representante mais próximo. Se a verdade foi revelada, nossa função deixa de ser criá-la juntos e passa a ser obedecer corretamente. Se o futuro já está escrito, qualquer pessoa que conheça o roteiro ganha o direito de dirigir os atores.

A pirâmide deixa de ser apenas um monumento.

Torna-se a forma do mundo.

No topo, os que sabem. Embaixo, os que acreditam. Entre eles, uma longa escada de graus, iniciações, frequências, castas, autoridades, eleitos, despertos, sacerdotes, governantes e intermediários de toda espécie, cada qual ocupando o degrau correspondente à sua proximidade com aquilo que supostamente não somos.

Talvez por isso as pirâmides nos perturbem tanto. Não porque sejam grandes demais, mas porque revelam duas histórias ao mesmo tempo. A primeira está diante dos nossos olhos: seres humanos foram capazes de coordenar conhecimentos, corpos, técnicas, crenças, violência, imaginação e trabalho numa escala que ainda nos assombra. A segunda acontece dentro de nós: fomos ensinados a olhar para essa realização e encontrar nela a prova de nossa incapacidade.

Criamos algo extraordinário e usamos sua grandeza para demonstrar que não poderíamos tê-lo criado.

É difícil imaginar uma expropriação mais perfeita.

Nem mesmo precisamos que alguém roube nossa obra. Nós a entregamos. Entregamos porque ela nos excede, porque não cabe no indivíduo, porque ninguém consegue apontar para si e dizer “eu fiz”. E como aprendemos que toda autoria precisa possuir um dono, o que não pertence a uma pessoa acaba pertencendo a um deus.

Só que existe outra possibilidade.

Uma obra pode ultrapassar cada ser humano envolvido nela sem ultrapassar a humanidade. Uma ideia pode ser maior do que aquele que a formulou sem ter sido soprada por uma inteligência superior. Algo pode nascer entre pessoas, circular por gerações, reunir memórias, erros, técnicas, encontros, conflitos e desejos até encontrar um corpo capaz de lhe dar forma. O fato de não sabermos inteiramente de onde veio não nos obriga a preencher o desconhecido com uma hierarquia.

Podemos preservar o mistério sem devolver o trono.

Este livro começa nas pirâmides, mas não é um livro sobre pirâmides. Passará por deuses, extraterrestres, mestres, médiuns, profetas, gênios, inteligências artificiais, civilizações desaparecidas e seres vindos de mundos superiores, mas também não será propriamente um livro sobre eles. Não pretendo provar que nunca estiveram aqui, negar experiências extraordinárias, fechar o universo dentro daquilo que a ciência atual consegue explicar ou trocar sacerdotes por especialistas igualmente convencidos de que apenas eles possuem o direito de dizer o que é real.

Quero investigar o desaparecimento de outra espécie.

O humano.

O humano que desapareceu de suas próprias obras. O humano retirado de suas experiências mais profundas. O humano tratado como criatura defeituosa, espécie atrasada, consciência adormecida, animal impuro, alma esquecida, experimento genético ou aluno repetente de uma escola planetária administrada por seres que, curiosamente, nunca comparecem à reunião de pais.

Quero compreender o que precisou acontecer conosco para que o extraordinário passasse a ser justamente aquilo que não poderia ser humano.

Porque uma pirâmide não é apenas aquilo que vemos quando olhamos para o deserto. Ela também é aquilo que aprendemos a não enxergar: milhares de vidas, conhecimentos acumulados, mãos calejadas, relações de poder, observações do céu, técnicas transmitidas, soluções improvisadas, erros corrigidos, histórias contadas, corpos coordenados e gerações inteiras participando de algo que nenhuma delas poderia realizar sozinha.

É possível que haja vida em muitos lugares do universo. Eu mesmo considero estranho imaginar bilhões de galáxias, bilhões de estrelas em cada uma delas, planetas, luas, oceanos subterrâneos, atmosferas e combinações químicas que jamais vimos para concluir, com a segurança de um síndico conferindo os apartamentos do prédio, que ninguém mais mora por aí.

Vida, sim.

O que não sei é por que essa vida precisaria se parecer conosco.

Uma forma de vida nascida sob outra gravidade, submetida a outras temperaturas, outras pressões atmosféricas, outras radiações, outra química, outra duração dos dias, outros ciclos, ameaças e possibilidades não seria apenas um ser humano com olhos maiores e menos cabelo. Talvez sequer tivesse olhos. Talvez não possuísse corpo individual, linguagem, memória como a nossa, interesse por ferramentas ou qualquer coisa que reconhecêssemos imediatamente como inteligência. Pode haver formas de vida tão diferentes que, mesmo diante delas, continuaríamos procurando vida em outro lugar, simplesmente porque não saberíamos vê-las.

Mas nossos extraterrestres são muito pouco extraterrestres. Eles constroem veículos, organizam governos, dominam tecnologias, realizam experimentos genéticos, disputam poder, escolhem povos, transmitem ensinamentos, fundam hierarquias e se preocupam profundamente com o destino da humanidade. Em geral são homens sem pelos, com a cabeça um pouco maior, vindos de longe o bastante para receberem de nós uma autoridade que não entregaríamos ao vizinho.

No fundo, não imaginamos outras formas de vida.

Imaginamos a nós mesmos sem nossas limitações.

E é justamente aí que minha desconfiança aumenta. Não diante da possibilidade de vida extraterrestre, mas diante da facilidade com que transformamos uma possibilidade cósmica numa humanidade aperfeiçoada e depois usamos essa criatura inventada para explicar a humanidade real. Se alguma inteligência nasceu em outro ponto do universo, depois de outra sequência de acasos, sob condições completamente diferentes, não há razão para supor que tenha chegado ao humano por outro caminho. O humano não é uma fórmula inevitável que o universo repete toda vez que reúne matéria suficiente. Somos o resultado singular de uma história que poderia ter dado errado em bilhões de momentos e, mesmo aqui, deu errado muitas vezes antes de conseguir nos produzir.

Foi preciso uma estrela anterior morrer e espalhar seus elementos. Foi preciso que matéria se reunisse, que um planeta se formasse numa região capaz de sustentar certas condições, que moléculas começassem a participar de processos cada vez mais improváveis, que a vida aparecesse, persistisse, se multiplicasse, sofresse mutações, enfrentasse extinções, encontrasse cooperações, produzisse corpos, sentidos, afetos, linguagem, memória e convivência. Foi preciso que incontáveis seres nascessem e morressem sem saber que participavam da possibilidade futura de alguém olhar para o céu e perguntar de onde veio.

Quando penso nessa sequência, não sinto que o acaso diminua nossa existência. Acontece o contrário. Eu me maravilho e me prostro diante dele. Um grande arquiteto que já existisse antes do universo, conhecesse o projeto e dispusesse de todo o poder necessário para executá-lo produziria uma obra impressionante, sem dúvida. Mas há algo ainda mais espantoso numa realidade que não sabia que chegaria até nós e, depois de bilhões de anos de colisões, fracassos, desaparecimentos, recombinações e desvios, tornou-se capaz de olhar para si mesma através dos nossos olhos.

Um Deus que cria o humano demonstra poder.

Um universo sem qualquer obrigação de nos produzir, mas que um dia acontece como humano, demonstra o impossível.

Não digo isso para transformar o acaso em outro Deus. O acaso não planeja, não deseja, não protege, não promete justiça e não possui um propósito secreto para nossa vida. Ele não substitui o arquiteto. Justamente por isso me comove mais. Se não havia projeto, nossa existência não é o cumprimento previsível de uma vontade superior. É um acontecimento que poderia nunca ter ocorrido.

E talvez seja esse o verdadeiro milagre que temos tanta dificuldade de suportar.

Não que seres inteligentes tenham vindo de outro mundo para nos criar, ensinar ou conduzir, mas que seres humanos tenham surgido neste mundo sem que o universo precisasse saber antecipadamente o que estava fazendo.

Por isso, mesmo que uma nave desça amanhã diante de nós, ainda teremos de responder por que passamos tanto tempo precisando que ela já tivesse descido ontem. A existência de outras inteligências não explicaria nossa inteligência. A grandeza de outra espécie não diminuiria a nossa. E encontrar seres capazes de atravessar as estrelas não transformaria em extraterrestres as mãos humanas que cortaram pedras, conduziram barcos, observaram o céu e levantaram as pirâmides.

Talvez o maior mistério das pirâmides não seja como foram construídas.

Talvez seja por que precisamos que não tenham sido construídas por nós.

Explorador de uma nova visão sobre o humano em nós. Ativador de campo. Artista da percepção. Filósofo intuitivo. O que ele mostra… você não consegue desver.