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Logo que nasci lembro que a primeira coisa que vi foi um rosto masculino. Achei que era meu pai. Só que não. Era o médico mesmo.

Depois lembro de ter visto o rosto de uma senhora emocionada. Achei que era minha mãe. Só que não. Era a enfermeira me limpando.

Aí sim, cheguei num lugar confortável. Era quente e macio. Senti algo que me fez instintivamente abrir a boca e começar a sugar. Era doce, morninho, gostoso. Dou aquela abridinha de olho marota, só curtindo, e vejo outro rosto masculino tal como os outros, molhando o lençol de lágrimas. Este sim, era o meu pai.

Só que não. Ou melhor, poderia ser, e foi, mas não era meu pai biológico. Para todos os efeitos foi o cara que fez a função de pai por vários anos da minha vida.

Meu pai biológico? Ele e minha mãe foram separados quando descobriram que estavam grávidos. Não. Não foi pela gravidez, nem por qualquer discussão ou desilusão. Ele foi convocado para ir à guerra e não teve escapatória. Naquela época nossa cidade-nação entrou em guerra contra o pessoal do Morro do Lobo do Homem, auxiliando nossos vizinhos sociais australianos nesta insurgência contra a glocalização daqueles homens-gadget-aperfeiçoados-puros-perfeitos que desejavam criar um comando-controle sobre os arquivos-fonte dos artefatos para matar, impressos nestas máquinas 3D que viraram uma febre por todo canto.

O fato é que ele nunca voltou, nunca mais foi visto, e dele não tivemos notícias por décadas. Durante este tempo, me fudi. Saramago foi para mim um pai no sentido mais puro e tradicional da palavra. Ele me tinha como quem tem uma criação. Me disciplinava como quem quer moldar uma argila de corpo mole e rebelde. Era o próprio G.:A.:D.:U.: (Grande Arquiteto do Universo) que, maçonicamente, desbastava a pedra bruta para trazer luz ao meu caráter e moral. Michelângelo deveria ficar orgulhoso de Saramago ao ver aquele processo: a fé de trazer luz ao que ele já via dentro da rocha antes mesmo de começar seu labor como escultor. Pois é. Só que não. Mandei o G.A.D.U. e Michelângelo e Saramago procurarem suas mães na casa das minhas austeras primas do bairro, e fui suavemente rebelde. Achavam que me dobravam, mas não me quebravam. Segui o preceito oriental que dizia para sermos como uma folha de capim, que se curva ao vento, mas sempre volta à sua posição. Resumindo, dei uma canseira danada pro meu pai.

Aliás, lembro que, quando pequeno, entenderia que se outro pai surgisse como se fosse meu, não faria diferença alguma. Minha mãe poderia ter tido vários pais. Talvez minha experiência teria sido muito mais rica com 3 ou 10 pais diferentes. Depois, passei a desejar isso durante minha adolescência. Certa vez abri a boca sobre estes pensamentos e saí com dois vergões do fio que correu nas minhas costas. Fui infeliz, e muito mais, burro. Mas, pensando aqui, só criamos esta ideia de termos um pai único quando começamos a frequentar a primeira instituição de obediência que inaugura nossa formação social: a escola. Ali implantam a idéia única e correta de como é a sociedade, de como deve ser a família, os amigos e todos os malwares que irão lhe causar as doenças, desgostos e desilusões pelo resto da sua vida.

Os anos passaram. Eu estava com Andreza percorrendo as curvas dos Andes de moto. Foi uma viagem incrível de três meses vibrantes, muito suor, saliva e… tudo mais. Quando voltei, soube que Saramago havia falecido. Não pude ser avisado. Não pude ir ao seu funeral, enterro. Nada. E nem fui visitar sua lápide quando acabei sabendo. Me despedi ali mesmo, comigo, sozinho, agradecendo junto ao calor amoroso que sentia por ele independente de qualquer coisa, e que aquele amor me acompanhasse sempre que sua pessoa voltasse dos mortos vivificando-se através da minha.

Hoje, estou fazendo meus 56 anos. E comemoro junto ao maior amigo. Aqui ao meu lado, compartilhamos um charuto cubano harmonizado com um excêntrico single malt. Há 9 anos convivo diariamente com essa pessoa que, apesar de ser 19 anos mais velho, tem uma jovialidade maior que já tive em toda minha vida. Aquele sujeito do tipo nordestino conhecido como Jesus talvez tenha ressuscitado mesmo é para estar com alguma pessoa assim. Quem sabe o próprio diabo. Te questiona, te inspira, te provoca, mas não é a pessoa em si, e sim a química entre você e ela que provoca isso. Sempre suspeitei que ressurreição tivesse algo com alquimia. Deixei minha putrefactio para voar nas asas de fogo da fênix.

Hoje penso porque nossos pais não poderiam ser assim? Talvez aí não sejam pais. Talvez o pai deixe de ser quando a mãe deixa de amamentar. Talvez não seja necessária esta configuração familiar para sermos pessoas humanas. Sim, porque a experiência que tenho há 9 anos é muito mais humanizante que a que tive até então, com aqueles que na defesa e proteção da tradição, da cultura, da família, da moral e dos costumes buscam fazer emergir amor, fraternidade, colaboração e admiração, através da obediência, das regras, do adestramento da besta que trazemos em nosso umbrais. – Não disse? Bem feito!

Há milênios continuamos inventando pêlo em ovo, replicando o mesmo comportamento maligno que desabrocharam nossas mazelas. E a esperança, sim, foi a maior delas, o último e único mal que restou na boceta de Pandora. A esperança permeia tudo isso como uma maldição, uma fé em duplipensamento. A palavra esperança deve ter sido inventada na novilíngua de Orwell. Acreditamos em algo que sabemos que não virá.

Alfredo, que estava ali me acompanhando, com seus 75 anos bem vividos, olhos iluminados pelas lágrimas, envolto pelas brumas do nosso charuto compartilhado, repete mais uma vez o que diz todos este anos, nesta mesma data: Não acredito que somos pai e filho!

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