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Depois fiquei sabendo que aqueles dois amigos estavam exaustos, faziam vários anos, de levarem a mesma vida, fazendo as mesmas coisas, tendo ano após ano os mesmos problemas. Ambos queriam se tornar outras coisas, mas foram esmagados pela busca da sobrevivência, abandonando seus sonhos e desejos. E assim, foi num churrasco, entre o frescor do gole da caipirinha e aquele assado de coraçãozinho crocante e macio marinado no hortelã, que ambos tomaram coragem e fizeram um pacto de mudança de vida.

A verdade é que também estavam cansados de ouvirem sempre as mesmas coisas um do outro, aquele papo circular, o bocejo durante as falas, o silêncio entre assuntos, a busca por qualquer distração salvadora que não dependesse daquela conversa.

O porém é que tinham visões bem diferentes de como esta mudança poderia ocorrer para cada um. O pacto passou a não ser apenas um estímulo para provocar a mudança, mas um desafio para provarem qual visão estaria correta.

Veja só. Um deles resolveu mudar a forma de pensar. Acreditava que o pensamento resolvia tudo. Mentalizava e meditava todos os dias o que desejava. Acordava, olhava a si mesmo no espelho e passava a repetir como um mantra sagrado alguma frase auto-afirmativa e motivacional. Visualizava quem queria ser. E dizia que, dessa forma, o universo estaria conspirando a seu favor. Sua mente passaria a funcionar como um motor atrator dos seus desejos.

O outro dizia que de nada adianta mudar sua forma de pensar ou mesmo suas crenças. Mude de religião, adote outra corrente espiritual, mude seu mindset, não importa o que ou como você pensa. Somente comportamentos mudam comportamentos. E então, no caso dele, resolveu fazer diferente tudo o que fazia. De início, não escolhia muito que ações tomar, não importava, desde que fosse algo muito inabitual. Depois, começou a buscar reagir a situações da forma como quem desejasse se tornar reagiria. Teatro ou não, foi ator de si mesmo até o momento em que, acreditava, sua nova pessoa surgisse quando suas reações se tornassem instintivas de tão condicionadas.

Toda quinta se reuniam no bar que frequentavam desde os tempos da faculdade. Eu também. Foi ali que me deparei com estes dois sujeitos conversando sobre esta loucura. E o papo deles estava cada vez melhor. Ambos iam pescando aqui e ali os momentos de sua semana que ajudavam a provar que seu método estava dando certo. Quando ouvia eles conversarem no bar, me lembrava, vagando em um prazer saudoso, do meu amigo Affonso. Naquelas conversas que tínhamos todo sábado, me deleitava nas ideias rebeldes e criativas que saíam pela boca de um senhor com seus 89 anos. Era genial. E vendo os dois artistas da lábia querendo um convencer o outro ali, se encaixaria perfeitamente quando Affonso dizia que nosso cérebro era dividido em duas metades: uma que pensa, e outra que prova para nós mesmos que o que pensamos está certo.

Certa quinta, em meio às provas irrefutáveis que apresentavam sobre suas teorias, apareceu uma outra pessoa.

– Graaaande Jean! Tudo bem cara? – um daqueles amigos logo o cumprimentou.

– Não acredito que você também conhece o Jean! – emendou o outro cara. – Que coincidência legal! E aí Jean, tudo joia? Como anda o negócio da camisetaria?

Com Jean ainda sem conseguir falar nada, o outro amigo emendou:

– Camisetaria? Só se ele trocou as telas pelas camisetas! O Jean é um puta artista plástico! Já fui no atelier dele várias vezes e… – antes que ele terminasse, Jean interrompeu:

– Hehe, na verdade, pessoal, faço tudo isso.

Um olhou pra cara do outro, pediram outra cerveja e, é claro, o papo caminhou para a aposta que estavam fazendo, sobre como e o que é necessário para ter uma mudança radical de vida.

Em certo momento, Jean foi enfático:

– Você só vai saber realmente que sua vida mudou quando você estiver vivenciando outros relacionamentos, convivendo com novas pessoas.

Aquela sentença proferida por Jean até que pareceu fazer sentido. Não só para aqueles amigos, mas até pra mim. Apesar de lógico e talvez até mesmo simples, me parecia incrível pensar que são pessoas e as relações que você mantém com elas os maiores influenciadores da sua vida.

O fato é que aquelas palavras de Jean ressoaram entre aquelas pessoas que ouviram e também nas que não ouviram, e gerou uma perturbação naqueles fluxos existentes, tanto entre amigos de longa data quanto entre os desconhecidos que você esbarra naquelas idas e vindas ao banheiro.

O telefone de um tocou, e mais uma vez foi a cara de merda ao desligar, a saideira que puxa outra, outra e mais outra, a briga pra ver quem paga a conta, as mesmas piadas de fim de noitada, o combinado da próxima. Mas ninguém ali saiu da mesma forma que entrou.

Jean não quis dizer o que você deve fazer para mudar sua vida, observou o que ocorre quando ela está neste processo. Foi depois de muitas outras quintas, descobri que Jean, além de ter uma camisetaria e ser artista plástico, também tinha uma livraria e fazia parte de um clube de astronomia. Mas que também já tinha prestado consultoria de gestão ambiental e sustentabilidade para vários municípios, que foi um hacker ativista na época do colégio, e que agora pretende mergulhar no entendimento e investimento em criptomoedas.

Ele não era um cara que você poderia dizer que se deu bem na vida porque fez seus milhões. Porque não fez. Mas você via como ele estava de bem com vida, e como tinha vida! Seguindo seus desejos adentrou em novos mundos, e aprendeu que mundos diferentes coexistem na mesma pessoa que somos. Que em cada um desses mundos sociais que nos interpenetra, estabelecemos relações e comportamentos diferentes.

Sim, Jean era muito rico, mas porque sua rede de relações era rica, aberto a encontros imprevisíveis, a novas possibilidades de conexões com pessoas que sinergizam com sua vontade de fazer e agir. Jean era um viajante de interworlds.

A vida daqueles dois amigos, sim, mudou. Um achou que foi porque pensou como pensou. O outro que foi porque se comportou como se comportou. A briga pela razão vez ou outra voltava naquelas quintas. Mas eu ali, que seguia meu aparente ritmo de sempre, pouco me importando com os problemas ou desafios das pessoas que ouvia e observava – mas ao mesmo tempo que fazia parte daquilo tudo de todos – vi de forma diferente o que aconteceu.

Mudaram porque Jean aconteceu. Alguém que já era praticamente um desconhecido, anos sem contato, mas que num improvável momento esbarra em nós. Não precisamos cair na bengala do apoio moral querendo significar isso como causalidade. Pessoas como o Jean esbarram em nós todos os dias.

Você deseja mudar de vida? Ter outra vida? Conhecer novos mundos? Pouco importa o que pensa ou como se comporta. Siga seus desejos, e você encontrará num momento improvável e não planejado aquele fugaz coelho da Alice, cuja pessoa é a porta para outros mundos.

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