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Pedi uma pinga com limão no buteco do bairro. Gostava de ficar ali, apoiado naquele balcão que, de tão rente à calçada, praticamente lhe empurrava para fora do bar. E naquela rua de pouco movimento motorizado ainda viam-se crianças brincando sobre aquele asfalto – uma raridade nos dias de hoje, um dos poucos prazeres que ainda tenho na vida.

Corriam, gritavam, caíam, ralavam, sangravam, xingavam, gargalhavam, sacaneavam, descobriam, inventavam, imaginavam. Gostava mesmo de quando aquelas crianças vira-latas brincavam com os cachorros da rua. Tinha um em especial que morava no bairro. Pretinho, alegre, manso, brincalhão, que as crianças chamavam de Totó. Ele era de todos. A casa do dia, que Totó espontaneamente elegia para comer e dormir, educadamente o servia e abrigava. E todos se alegravam disso.

Totó fazia a festa da garotada. Era amigo, dragão, cavalo. Corria junto no pega-pega, escondia junto no esconde-esconde, e furava a vez do outro no pula-corda.

Bom mesmo era ver aquelas crianças surradas pela sujeira sendo lambidas no rosto e orelhas pelo Totó toda vez que caíam. Sim, ainda existia infância. Não aquela dos shoppings, das propagandas de TV, dos programas infantis ou de família, não aquela invenção criada pelas escolas, pelas creches, pelas igrejas e pelas famílias paridas pelo falso moralismo. Ainda existia infância enquanto existíamos como humanos.

Pedi uma pinga com limão no buteco do bairro. Crianças aqui e ali fazendo algazarra. Logo em frente, pegavam a xepa da feira para não terem que ir pra casa almoçar. Afinal, hoje era sábado, dia de ficar mais tempo na rua.

Cadê o Totó?

Passaram semanas, e nada do Totó. Ninguém sabia. Ninguém viu. No bairro todos ficaram preocupados, as crianças entristecidas. Nada de Totó.

Havia a Dona Eglantina. Senhora de posses, bem vestida, assídua frequentadora da paróquia do bairro. Ela não era muito de falar. As poucas vezes que a ouvi não foi respondendo a um simples bom dia de uma pessoa comum, mas repreendendo alguém por maus costumes ou xingando as crianças que corriam para se esconder após apertar sua campainha.  Muito amiga do padre, do gerente do banco e do diretor da escola, Dona Eglantina ficava em sua casa a maior parte do tempo. Não era de se misturar. E nunca a vi sem suas luvas.

Pedi uma pinga com limão no buteco do bairro. Era uma segunda-feira chuvosa. Dona Eglantina aparece do outro lado da rua, caminhando com seu longo vestido inglês, guarda-chuva preto e… segurando um cachorro pela coleira.

Estava difícil de ver, de reconhecer, mas aquele cachorro preto seria Totó? Os olhos brilharam, o coração bombou mais forte, mas logo veio aquele frio na barriga… Será que ela havia pego o Totó?

Chamei o Zeca pra ver se reconhecia. – Vem cá Zeca, saca só! Não é o Totó com a Dona Eglantina?

Ele, do outro lado do balcão, arrumou seus óculos feito com o fundo da coquinha ks, e disse: – Sei não Juércio, parece que é, mas pode não ser. Ah, acho que é heim? Masqueporra

No dia seguinte, antes de pedir minha pinga com limão, chamei o primeiro moleque que vi. Falei pra ele dar uma bizoiada na casa da Dona Englantina, ver se achava por ali um cachorro.

– Mas ela não tem cachorro!

– Vai lá moleque! Aperta a campanha, inventa uma história, olha por trás da porta, e volta aqui pra me falar que eu te dou uma teta de nega (por aqui não era pedofilia nenhuma ter um doce pra criança chamado de teta, muito menos racismo por ser de nega).

O moleque foi correndo.

– Uma pinga com limão Zeca! – e fiquei de butuca vendo como ia ser.

Ele aperta a campainha uma vez e aguarda. Nada dela aparecer.

Aperta uma segunda. Ainda nada. Ele olha pra mim e levanta os ombros como quem diz que ninguém atende. Eu aceno pra ele tentar de novo.

Talvez as brincadeiras da garotada tenham tirado a fé da Dona Eglantina de que alguém algum dia poderia realmente estar tocando na casa dela. Ele toca a terceira vez. Aguarda. E aguarda. A porta se abre lentamente. Vejo Dona Eglantina com um olhar de desconfiada. Ela olha para os dois lados da rua como que procurando alguma zueira eminente.

Vejo o moleque apontar para dentro da casa dela. Dona Eglantina olha naquela direção e lentamente se volta pra ele. Fala, fala, fala e fecha a porta. O moleque volta andando, acelera o passo, corre em minha direção. – E aí? – pergunta o Zeca por trás dos meus ombros.

O moleque recupera o fôlego e manda: – Era o Totó!

Dá duas respiradas e emenda: – Mas não era o Totó!

– Peraí! O que ela disse? – perguntei curioso querendo saber o que ela tanto falou.

– Ela falou que tinha ganho aquele cachorro do filho dela, pra fazer companhia e proteger sua casa. Que aquele cachorro se chamava Alfredo e que… iquiii… não era pra eu ir mais lá! Agora dá meu doce tio!

– Calma moleque! Por que você disse que não era o Totó?

– Porque… purqueee… ah, ele tava limpo, bunito, mas com uma cara estranha, parecia meio triste e com medo.

Zeca, dá uma teta de nega pra ele!

O moleque saiu feliz saboreando aquela teta que enfiou logo toda na boca.

– Por que será que ele disse que o Totó tava triste e com medo Juarez? Se tudo isso for verdade mesmo, tá na vida boa agora? – me perguntou o Zeca.

– Haha, pensa bem, Zeca. A véia, que vive sozinha, talvez passou a se sentir solitária demais. Ou, melhor ainda, talvez precisasse de alguém pra mandar dentro de casa, e não apenas nos conhecidos-estranhos da vizinhança. Aí viu o Totó que deve ter ido pedir comida ou foi dormir na frente da casa dela, e ela viu a oportunidade de tirar um pouco a alegria da rua e das crianças ao mesmo tempo em que via no Totó as crianças selvagens que gostaria de domesticar.

– Mas você acha mesmo que ela maltratou o cachorro, Juarez?

– Não sei, Zeca, mas sei que é fácil ser dono e senhor de quem você alimenta e cuida. O cachorro deve ir pro spa toda semana agora, é bem alimentado, bem cuidado da saúde, vacinado, deve ter uma caminha dá hora, e o melhor de tudo, deve estar sendo domesticado para sentar, deitar, lamber e essas coisas idiotas que o circo gosta.

– O cachorro virou gente né? – perguntou Zeca em tom irônico.

– É… o cão-cidadão agora tá com comida na mesa, convênio médico, cama quentinha e até escola ele tem. O cão-cidadão não é domesticado, Zeca, é ensinado. Isso é outra coisa! Muito melhor de se ter… hahaha.

Na rua, a garotada enxameou de novo. Ali, vendo a algazarra, nunca poderia imaginar que escolarizamos crianças como domesticamos animais. Que o que nos faz humanos e mantém a chama da vida em nossos olhos é a liberdade para correr, gritar, cair, ralar, sangrar, xingar, gargalhar, sacanear, descobrir, inventar, imaginar… e não uma pseudo-cidadania que, mesmo quando funciona, quer restringir nossa humanidade em troca de nossos direitos mais básicos, que deveriam ser universais e incondicionais. Uma comparação criminosa com efeitos autocráticos. Mais um implante maligno para uma sociedade escolarizada. Preferia mesmo ver ainda o Totó como era antes, que confiava em todos para brincar e cuidar, livre para ser o que desejasse e fazer tudo quanto fosse desnecessário. Caiu na Dona Armadilha da cão-cidadania.

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