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Você não quer acordar. Dormiu mal. Após ter deitado, estando pra pegar no sono, você resolveu iluminar seu rosto perdido em si mesmo com a luz branca demoníaca do seu celular. Mais uma dose de prazer para seu cérebro. Mais um despertar da dor para a noite que seguia. Não achou uma posição. Se revirou a noite inteira. Acordou, levantou, deitou, várias e várias vezes madrugada adentro.

Você não quer acordar. O despertador toca. A música leve e sutil se torna a lembrança do dia pesado, nublado pelos afazeres repetitivos que te escravizam. A rotina matinal é sempre a mesma. Não foi a cidade pequena nem o ar da montanha que lhe permitiu saborear liberdade, tempo, ócio ou mesmo a potência de fazer o que seu coração sente. Você ainda se sente asfixiado pela busca da sobrevivência, pela escravidão do servir, pelas responsabilidades que outros despejaram sobre você. Nunca houve consentimento de sua parte. Você nunca aceitou o mal necessário. Por que deveria?

Até que você, finalmente, sai andando em direção ao trabalho.

É naquele momento, e somente ali, onde você consegue não olhar celular, nem caminhar ouvindo qualquer música. Não saiu apenas da sua casa, naquele instante, você sai de si mesmo. Você imagina. Inventa que simplesmente foi, andarilho sem rumo, sem destino, sem hora. Na verdade, você está programado para chegar, para cumprir seu horário, para ir ao local que lhe aguarda. Mas você fantasia, e acredita na sua ficção.

Você sente o ar da montanha, inspira. Caminha. A brisa beija seu rosto, você retribui o bom dia. Caminha. Tons de todas as cores, nas casas, nas flores, nas montanhas. O céu hoje está azul profundo, lindo, estonteante. Passam domésticas, jardineiros, seguranças, naquela hora, ainda há poucas pessoas na rua. Todos apressados, perdidos no caminho certo e planejado que seguem com a segurança de quem quer chegar no fim do mês. Caminha.

Ruas repletas de árvores, folhas sendo levadas pelo tempo. Os detalhes nos muros das casas que você nunca viu. Os vira-latas procurando o café da manhã ou a gentileza da vizinhança. Mais um pouco, carros passam, mães apressadas com seus filhos a passos largos. O dia deles também começa mal, você só observa em neutralidade. Sem julgamento, caminha.

Você pode falar sozinho em alto e bom som, e o faz. Grita. Chama. Responde para si mesmo. Passa o cara no seu cooper matinal, a moça da caminhada. Bom dia! – diz. Todos, com som artificial nos ouvidos, te ignoram. Sem se importar, caminha.

Sua ficção é geniosa. Várias ideias passam pela cabeça, histórias diversas, situações engraçadas, filosofias sofistas, lembranças saudosas. Tudo se mistura, se emenda, e se esvai da mesma forma que veio. Por vezes, você sai gargalhando sozinho na rua. Noutras, é pego por si mesmo com os olhos marejados. E caminha.

Este é o melhor momento de todo seu dia. Todos os dias. Durou todo o tempo do mundo, até o momento em que você chega na porta da empresa onde trabalha. Uma vida que durou poucos minutos. Todos os dias, uma vida diferente é vivida por você. Uma nova pessoa se descobre na falta de rumo. Porque você saiu de si mesmo para se perder no não-caminho, e se achar na multidão.

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