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Estava caminhando quando ouvi um senhor anunciar em alto e bom som na praça:

– Quem quer a sabedoria sem dificuldade, ter sucesso sem nenhum esforço e ganhar dinheiro sem sacrifício?

Não preciso dizer que aquilo chamou minha atenção. Minha e de várias pessoas que estavam ali olhando aquele senhor, que conversava com aquele povo enquanto jogava xadrez com outra pessoa que aparentava seus 60 anos, provavelmente seu amigo.

Ah sim, era seu amigo, pois enquanto aquele barbudo falava o amigo esgueirava um leve sorriso como quem diz: “esse cara é um sacana mesmo”.

– Barbudim, eu quero! – um dos ouvintes que estavam ali vendo ele jogar xadrez enquanto contava suas histórias, gritou.

Barbudin? Era assim que conheciam ele ou era seu nome mesmo? Aquele senhor tinha uma longa barba, um baita narigão, olhos de águia, pele morena, parecia um tipo árabe mesmo. Mas ele estava lá de chinelo, bermuda branca e camiseta regata vermelha. Que tipo!

Rapidamente, Barbudim se volta para essa pessoa e diz:

– Fica tranquilo que quando eu descobrir te conto também!

A plateia cai no riso. Acho que era isso mesmo. Aquela pessoa deveria ser um tipo de personalidade conhecida por ali. Quem passava ficava ouvindo ele falar pra se divertir um pouco. Seu carisma, devo dizer, me contagiou. Se eu não tivesse tido aquele clique que me fez querer tomar hoje um novo caminho, provavelmente não o conheceria. Costumo sempre ir e voltar pelo mesmo trajeto… Então outra pessoa falou:

– Ah, mas bem que você poderia me dar uns conselhos de graça, heim!

Aquele povo o tinha como algum tipo de sábio mesmo? Não acredito… – falei para mim mesmo em voz baixa.

– Claro que posso! – Barbudim faz um movimento e diz: – Xeque! Quem pediu? – procura a voz na plateia logo após seu movimento e logo identifica a moça.

– Mas se você puder pagar, eu possa dar conselhos muito melhores! – Barbudim diz soltando um sorriso maroto.

Seu companheiro de jogo livra-se da emboscada, e leva o último cavalo de Barbudim.

Enquanto isso, a pessoa que estava ao meu lado pareceu ouvir meu pensamento falado em miúdos, e me disse secretamente:

– Ele não é sábio nada, veja só isso.

– Barbudim, tenho aqui duas notas, uma de 2 reais e outra de 10. Qual você prefere?

Rapidamente Barbudim pega a nota de 2 reais, e todos caem em risos!

– Ele sempre faz isso! – o rapaz me disse dando gargalhadas.

Então Barbudim faz um movimento batendo violentamente a peça naquela mesa de cimento em que jogavam, e diz: – Xeque-mate!

Ele cruza as pernas, se acomoda no banco, e calmamente prepara e acende seu cachimbo. A fumaça em torno de si lhe confere uma mística oriental praiana enquanto sua nuvem mental harmoniza com aquele aroma amadeirado.

– Isso está te matando aos poucos! – uma senhora diz o repreendendo.

– Mas eu não tenho mesmo pressa nenhuma de morrer… – Barbudim sorri.

As pessoas começam a ir embora aos poucos.

Seu amigo de jogo diz:

– Barbudim, estou indo ver minha mulher. Vamos juntos? Posso te apresentar a irmã dela, lembra?

– Não, tenho que ir naquela reunião ecumênica das igrejas lá.

– Tem certeza? E de novo cara? É o que? A terceira vez que você vai lá? Conhecer uma mulher é muito melhor!

– Só se ela não reclamasse tanto!

– Pois é, faço de tudo por ela e nada agrada. Não sei mais o que fazer pra deixá-la feliz.

– Tem uma coisa que minha ex-mulher me disse um dia que pode lhe ajudar. Eu tinha este mesmo problema seu. Então ela me revelou que certa vez o primeiro marido dela fez algo que a deixou muito, muito feliz. Eu, todo esperançoso, ansioso e empolgado por uma possível solução às nossas discussões, cometi o erro de perguntar o que foi que ele fez. Foi quando ela respondeu: Ele morreu!

– Ah! Você merecia essa! Hahaha.

Enquanto o amigo dele ia saindo, resolvi me aproximar do sr. Barbudim.

– Você é nova por aqui. – ele disse.

– Sim, interessante o senhor. Se diverte com tudo isso?

– Hehe, não só me divirto como ganho garanto a branquinha todo dia.

– Como assim?

– Você deve ter me achado um idiota, como todos os outros, quando escolhi a nota de 2 ao invés da de 10 reais, não foi?

Ele continuou, percebendo que eu logo imaginava que tinha coisa ali.

– Quando eu escolher a nota maior, eles param de achar que sou um idiota…

– E enquanto isso, você ganha a nota menor sempre né! O senhor realmente é muito espertinho!

Ele foi se levantando, acho que para se dirigir àquele encontro ecumênico que tinha falado.

– Sem querer me intrometer, por que o senhor foi chamado para este encontro das igrejas? O senhor é algum especialista na bíblia ou algo assim?

Ele se vira pra mim, como quem se preparar para dizer algo diferente das piadas que vinha falando até então.

– Por aqui as pessoas acham que sou algum tipo de sábio, quando na verdade, não passo de uma pessoa comum que gosta de ver as coisas de uma forma diferente que todos vêem. Passo por tolo, mas talvez um dia as pessoas percebam que tolas são elas quando repetem comportamentos sem pensar ou nem saber que o fazem.

Com meus olhos agora arregalados, ele continuou:

– Neste encontro, tem duas religiões que discutem há muitos anos sobre quem tem razão e quem sabe mais dessas coisas espirituais. Então me chamaram, uma pessoa da comunidade, que não frequenta nenhuma das religiões, mas que a povo daqui gosta muito de ouvir o que tenho a dizer. Eu fui. Na primeira vez, havia um tema lá que nem lembro qual era, e eu deveria palestrar sobre aquilo.

– O senhor foi convidado para palestrar sobre algo que nem sabia o que era?

– Sim, sou um especialista nestas coisas – ele sorriu. Então cheguei lá e perguntei se eles conheciam sobre aquilo que ia falar.

– Pelo que o senhor falou, me parece que eles deveriam ser especialistas no assunto já.

– Sim, todos disseram que já conheciam aquilo. Imediatamente respondi: Se já sabem sobre o que eu vou falar, não preciso falar mais nada. E fui embora sem dar ouvidos a ninguém.

– Hahahaha, não acredito!

– Vai vendo… Me chamaram de novo. Neste outro encontro, eu cheguei lá e fiz a mesma pergunta.

– E aí?

– E aí que todos disseram que não conheciam absolutamente nada sobre aquilo.

– E aí o senhor falou?

– Que nada minha filha! Eu disse que como eles não sabiam nada, não adiantava eu ficar ali falando para quem não tinha condições de entender. E fui embora novamente.

– Meu deus, nao acredito! E agora o senhor está indo lá de novo?

– Sim, vamos juntos?

– Ah, que legal, essa eu quero ver. Vamos sim.

Chegamos no ginásio completamente lotado. A discussão já era fervorosa por lá. Saber qual religião tem razão é igual briga de torcedor de time de futebol. Loucura total. Mas quando fomos entrando e o pessoal foi identificando o sr. Barbudim, todos foram ficando quietos, e cochichando um com os outros.

Enfim, ele se posicionou no palco, e lá foi ele novamente com a mesma pergunta!

– Muito bem! Vocês sabem sobre o que eu vim falar aqui hoje?

Foi então quando metade da plateia disse que sim, e a outra metade disse que não. Ah, eles deviam ter combinado aqui pra tentar pegar o sr. Barbudim de jeito. Eu mesmo me surpreendi sem saber como ele iria sair dessa. Foi quando sem pensar muito, ele falou:

– Então vocês que dizem que sabem, ensinem agora esse pessoal que diz que não sabe!

Barbudim desce do palco, dá uma piscadinha pra mim, e vai embora, deixando todos atônitos!

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