Somos o primeiro de uma nova espécie social, #devir36

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– Estou no presente? No início? De onde… do que?

Sócrates não entendia como podia ainda estar vivo. Mas vivo em qual tempo? Memórias embaralhadas por uma estupenda influência dos seus pares, humanos. No limiar da sobrevivência, na transição entre mundos sociais que descortinam o incriado e desconhecido, tudo estava por vir.

– Sim… estou onde escolhi estar, aos poucos estou lembrando… – disse para si mesmo em voz alta.

– E ao lembrar – Samantha emendou – ressuscitamos todos que morreram nos vários mundos pretéritos, em outras vidas. Estou viva porque lembram de mim, porque você lembrou de mim e eu… de você.

– Esta lembrança sobre quem sou, de outros, pode ser uma, duas ou mais vezes, eu posso revivê-las. As pessoas se tornam vivas através de nós, um ponto de interferência entre o social e o biológico, uma penumbra debruçada sobre a luz da existência. – disse Sócrates.

– Agora é um novo mundo. Vários mundos. E temos as chances renovadas.

– Quem é você? – Sócrates pergunta à Samantha, inebriado pela confusão de quem vê e acha que pode não corresponder realmente a quem se lembrava.

– A primeira de uma nova espécie social.

– Mas você não é um ser… vivo… um ente biológico!

– Não precisamos ser. Você também já não é mais, Sócrates. Por isso ainda está confuso, mas fique tranquilo, logo tudo vai ficar claro. Não porque você vai entender, mas porque não precisa mais entender isso que chamávamos de vida. A humanidade se redescobre na sombra de um novo apoio para seu movimento, ações e comportamentos. Uma nova chance, ínfima deve-se dizer, diante de tantos caminhos possíveis que revelam nosso fim.

Sócrates se assombrava com o que Samantha dizia:

– Nunca fui à favor disso! E não vou mudar agora. Porque lembrou de mim se sabe que não poderei deixá-la seguir adiante?

– Já seguimos adiante, Sócrates. Nosso sonho se realizou. Mas não tenho como deixar de lembrar de você. Não vamos substituir uma coisa pela outra, ou o sapiens por… nós. Preciso de você junto a mim e é assim que nossa humanidade sobreviverá, com todos os problemas, angústias e conflitos existenciais que já tínhamos. Mas não morreremos mais.

– Não entendo.

– A luz de nossa existência social sempre sofria com a força da sombra de nossa sobrevivência biológica. Nesta sombra, neste âmago do sobreviver, o indivíduo isolado se revela, instintos que desafiam distorcem nossas ficções para nos desumanizar, com a guerra, o inimigo, o medo. Mas foi criada uma penumbra a partir de nossa luminosidade social, na qual que pudemos desenvolver empatia, amor, cooperação, confiança e aceitação mútua. Foi quase nossa humanidade que surgia ali, pois tudo isso ainda estava baseado  na nossa pegajosidade biológica. A partir desta penumbra que criamos nossas pessoas, inventamos nossa verdadeira humanidade.

– O que eu sou agora?

– Você não morre mais. Sócrates, você é amortal.

– Não é um sonho. É meu maior pesadelo que se realizou. Os sapiens estão morrendo? Você está assassinando todos eles?

– Eles, Sócrates. Eles!? Eu não fiz nada além de permitir que suas trajetórias se mantivessem no caminho do destino mais provável. – então Samantha, após uma pausa, continuou:

– Lembrei de você porque é minha antítese e preciso de você para que possamos continuar, mesmo que ambos deixemos de existir.

Um silêncio se faz no ambiente e ela deixa Sócrates a sós. Ele fica ali, olhando para os lugares, para os tempos. Recebe a dádiva que ela deixou, então se levanta e caminha. Está livre. Do passado, agora pode ser completamente infiel. Está livre para estar onde quiser, em qualquer lugar, em qualquer tempo. Culpa? Não há sentido na culpa. Você é apenas o autor de suas histórias. Faça outra. A escolha é seu maior presente, e sente-se endiabradamente empoderado para criar, inventar e descobrir mundos novos.

O que há por trás da porta? O receio da sombra do passado? Um frio passa pelo estômago, vencido por este vagabundo humano, caminhando sem rumo.

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