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Vitória. Minha mãe uma vez me disse que foi isso que ela sentiu eu dizer pra ela quando, ainda grávida, me perguntou: Qual seu nome?

Já tínhamos meses de relacionamento, trocas de afetos e ternuras, calores e emoções. A ouvia cantar para mim. A mão quente do meu pai trazendo segurança e conforto. E desde então, aquela macaquinha, um indivíduo do gênero homo, foi se tornando algo imprevisível que escapou à própria cognição da natureza: uma pessoa. E a pessoa nasceu.

Durante meus primeiros anos fui Vitória, tal como imaginaram, tal como me entreguei à vida. Mas não por muito tempo. Aprendi a andar, falar, e passei a interagir com outras crianças, com outras pessoas. Alguns encontros imprevisíveis, outros já conhecidos de longa data. Não só pais, irmãos, avós, agora tinham os tios, primos, vizinhos, amigos da família e todos os estranhos que cruzavam comigo na rua. O som da TV, o desenho do canal infantil, a música clássica com aquelas adaptações toscas para bebês, os ecos diversos que presentificavam o passado na cultura que herdava e me envolvia.

Quando comecei a frequentar a escola, eu já estava pronta para ser outra pessoa. Não era mais a Vitória que cresceu, a não ser pelo batismo em uma visão estritamente biológica, mas socialmente, já tinha outros pensamentos e emoções, outros anseios e desejos, outros gostos na boca, tudo que outrora me arrepiava já não eram mais as mesmas coisas.

Poderia esta outra pessoa ter nascido, mas rapidamente foi sufocada. Aquela pessoa que cintilava querendo desabrochar como flor-estrela morreu de inanição. De repente, via a maioria se comportar de maneira muito semelhante. Andavam todos na mesma direção, paravam no mesmo instante, olhavam para o mesmo ponto, pintavam e escreviam igualmente, comiam ao mesmo tempo, sentavam de forma ordenada, falavam somente quando pediam e era permitido, se vestiam com as mesmas roupas, conversavam sobre as mesmas coisas, brincavam na mesma hora, tinham a mesma “tia”.

E todo aquele conjunto, aquela massa de comportamentos de um ouroboros putrefato, me fez encaixar rapidamente no esquema. As regras foram se tornando claras a cada chamada de atenção, um castigo ou qualquer outro tipo de punição. Não haviam outros caminhos disponíveis, outros modos de ser acessíveis. Ali surgiu, como resultado de um período curtíssimo de gestação, uma outra pessoa.

Lívia. Ah, ela tinha muito da Vitória sim, mas a Vitória não aparecia mais, ficou introjetada em mim no profundo dos meus sentimentos, lembranças e memórias escorregadias de uma outra vida. Quando me chamavam: Vitória!, me esforçava em fazer ouvir, erguer meu rosto, levantar a mão. O chamamento era de uma Vitória que não existia mais no meu tempo, mas que, é claro, fazia parte de mim. Secretamente eu sabia, era outra pessoa, era Lívia.

Cheguei a falar pra minha mãe que agora gostaria de me chamar Lívia. Ela levou na brincadeira, achou que era coisa de criança, não sentiu a verdade dos meus sentimentos, pediu para batizar uma boneca. Evidente que ela só poderia sentir tudo isso se eu ainda fosse a Vitória. A Lívia era outra pessoa, que minha mãe pouco conhecia.

Enquanto crescia, as experiências que tinha, os amigos que fazia e, principalmente, os estranhos com os quais conversava, me permitiram descobrir outras vidas, verdades, realidades e mundos. E eu fui sendo levada por este fluxo de interações, como a água sendo levada pela gravidade do rio, formando redemoinhos aqui, depois ali, em todo lugar. Cada vortex é uma pessoa que nasce, mas nunca morre, formada da mesma substância que constitui o próprio rio: a água da vida.

Com meu primeiro namorado, tive uma época bem conturbada. Irreconhecível – me diziam os mais próximos. Fui diferente não só para meus pais, mas também para meus amigos. Me isolei no e com meu amor. Muitos planos, sonhos, viagens. Podíamos e estávamos criando um mundo inteiro só nosso. Fui Thaís com ele.

Depois veio minha primeira e maior decepção amorosa. Me encolhi em mim mesma, só me vestia de preto, maquiagem escura, ouvia sons góticos, gritos melancólicos, suaves cantos angelicais perturbados harmonicamente com vozes monstruosas. Me droguei de diferentes formas, me embriaguei na minha depressão, me vitalizava com minha fúria. Dizia a todos: sou Adriana. Assumi publicamente quem era. Por que não?

Minha história não é da vida de um indivíduo, mas de várias pessoas que surgiram. Foram únicas através de mim, mas estão aí, no entre-nós, para você poder conversar com elas a qualquer momento, quando quiser, onde estiver.

Cada pessoa foi um pedaço de mim, enquanto em mim. Se incorporaram na memória de minha pessoagrafia como entes que convivem dentro do meu coração. Dentro de mim há uma pequena sociedade, e se você se mantiver em silêncio, poderá ouvir o murmúrio de todas elas conversando dentro do seu corpo-cidade.

Meu coração é a praça dos encontros imprevisíveis, das amizades fortuitas, da conjugação dos amores impossíveis. Somos este fluxo social, de pessoas criadas na invenção de nossos sentimentos, ou sendo descobertas nos entre-silêncios de nossas conversas. Cada pessoa, um novo mundo que se descortina, Ísis que permite ter seu véu erguido, revelação do serei o que seremos.

Quando este indivíduo, da espécie homo sapiens que sou, exalar seu último suspiro, pelo contrário, o humano que sou viverá. Em cada um que já interagiu comigo, naqueles que vivificam minhas lembranças, nos que lembram os vários nomes que já tive. Quando esta macaquinha morrer, não serei como Buda, com meu espírito pairando sobre todos, porque não tenho um espírito. Sou muitos. Porque não estarei pairando, mas sinuosamente fluindo entre nossa humanidade.

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