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Manuel tinha uma vida considerada por muitos como exemplar, perfeita. Alguns diziam que ele tinha um “quê” de divino, mistérios e segredos ocultos que rodopiavam em torno de sua pessoa.

Acordava às 5h e logo ia fazer todas aquelas higienizações indianas. Já preparado no momento em que o Sol despontava seus primeiros raios, Manuel sincroniza com o tatwa do dia e fazia uma espécie de ioga acompanhada de mentalização toda especial que ele havia criado depois de décadas praticando os mais diferentes tipos de exercícios para o corpo, alma, mente e espírito. Eram movimentos milimetricamente perfeitos com os olhos, cabeça, corpo, braços, tudo sincronizado com a respiração correta e a devida mentalização.

Ao fim, num estado em que Manuel se encontrava, dizia-se, praticamente celeste, sua mente desligava-se das coisas mundanas e migrava para os mais diferentes reinos divinos. Manuel permanecia quase que uma hora numa espécie de transe, em profunda comunicação com seus pares de outras dimensões.

Esta guinada que ocorria logo após seu despertar lhe mantinha conectado com tudo e todos, vivenciando uma verdadeira unidade com os mundos manifestados e não-manifestados. Seu olho interior atravessava todos os véus de maya e assim passava seu dia, mantendo-se ao máximo no frescor daquele perfume.

Manuel não precisava comer. Diziam que durante muitos anos ele viveu de luz, extraindo desse elemento sutil toda a energia que precisava para se manter forte e saudável. Hoje em dia, Manuel não se preocupava mais com isso, afinal, já com seus 94 anos (mas com aparência de 60), estava pronto para novamente alimentar-se dos raios solares junto aos seus companheiros de outros mundos.

Mantinha uma alimentação frugívora, somente ingerindo alimentos crus, algumas castanhas e nozes, e tudo mais que auxiliava para mantê-lo integralmente desintoxicado e bem.

A água que bebia, além de estar “aditivida” com elementos alquímicos de sua autoria, mantinha-se iluminada com reflexos azulados, e antes de ser ingerida sofria uma espécie de bênção de Manuel. Este ato de abençoar e ao mesmo tempo agradecer estava presente em tudo que Manuel fazia.

Ele dormia no sentido norte-sul, para que as correntes magnéticas do planeta influenciassem positivamente seus nadis, por analogia, algo semelhante como artérias energéticas do seu corpo sutil.

Manuel também tinha uma postura um tanto quanto distante, fisicamente falando. As pessoas que conviviam com ele na comunidade avisaram que era bom evitar contato físico. Não, não é que ele estava doente. Mas ficou parecendo que todos nós estávamos. O ponto, muito bem justificado por sinal, era que no estado de pureza que ele se mantinha, o contato com vibrações energéticas de outras pessoas não-compatíveis desequilibrava Manoel.

Histórias não faltavam. E eram muito impressionantes, pois todas elas não eram histórias que ele contava, aliás, nunca falava de si. Quem compartilhava eram pessoas que vivenciaram com ele estes momentos, de corpo presente, e que maravilhadas espalharam os feitos de Manoel.

Conversava com pessoas de outra dimensão e trocavam objetos que se materializam na frente de todos. Levitava com seu peito iluminado. Falava em línguas estranhas. Curou pessoas apenas com sua palavra. Diziam que esta mesma palavra já ressucitou um desconhecido durante um cortejo de um velório. Haviam testemunhos que ele já esteve, por várias vezes, conversando com pessoas em dois lugares ao mesmo tempo, coisa assim de estar em cidades de estados diferentes. As fotos que faziam dele, agora nem autorizam mais, só que tem fotos muito loucas com tudo o que você pode imaginar e não imaginar aparecendo no ambiente, coisas que nunca estiveram ali. Tocava magistralmente qualquer instrumento, e cantava também, com vozes tão diferentes que pareciam outras pessoas, homens, mulheres, crianças, coros! Lia as vidas passadas de qualquer um. Em determinados momentos intensos, sua face se transfigurava para de outras pessoas. Enfim, são tantas, mas tantas histórias, que simplesmente faziam de Manuel essa pessoa especial, praticamente mítica.

Só que não era apenas o que ele fazia, mas também como era. Sem querer falar da sua inteligência, que lhe permitia conversar sobre qualquer assunto com especialistas de suas respectivas áreas, ele tinha um caráter e moral indescritíveis. Falavam de sua compaixão, do seu amor ao próximo, do respeito que tinha sobre todos, do olhar misericordioso, da felicidade sublime e da profunda paz de espírito.

Então, de forma inesperada apareceu João. Estava acompanhando sua amiga, Narizinho, que veio fascinada em conhecer Manuel. Enquanto os olhos de Narizinho brilhavam, João tinha outros interesses, pensava poder namorar com ela. Aceitou o convite achando que ela tinha segundas e deliciosas intenções com ele. Chegando lá logo percebeu que o negócio da Narizinho sempre foi Manuel.

Entretanto, Manuel iria perceber rapidamente que seu discurso de que a pessoa que vem é a pessoa certa revelaria a pessoa mais “errada” que poderia aparecer na vida dele: o João.

Sim, João errou, mas sempre errava. Achavam-no perdido, mas quando estar perdido é uma forma de caminhar, pouco importa. Quando errar caminhos e uma forma de descobrir e se maravilhar, tudo é novo. E assim foi quando João viu Manoel, e ouviu de Manoel e da sua comunidade tudo que falavam.

João se perguntava porque alguém iria querer viver como ele. Não encaixava. Num misto de ironia e revolta, João começou a dizer que quem vive de acordo com as tais leis naturais, uma espécie de derivadas de leis universais, não são anjos, deuses ou iluminados, e sim os animais. Estes sim possuem uma sutil sintonia com tudo o que ocorre na natureza, com as “energias” invisíveis e as influências das mais diversas dos mundos que nos rodeiam. Ele, João, apesar de ter um corpo animal que lhe cobra determinadas obrigações biológicas, era outra coisa.

No começo, manifestaram um fulgor da raiva em risos, e os iniciados de Manoel escondiam o desprezo por João e sua ignorância como quem acha engraçado uma criança errar seu entendimento sobre o mundo.

Para João parecia uma contradição aquelas pessoas que buscavam galgar os degraus de uma suposta (e cruel) evolução, superioridade acompanhada de uma pretensa responsabilidade sobre outros (não humanos, só de outros bichos poderiam), não terem descoberto, vivenciado e, quem sabe, até mesmo negado, a possibilidade de conviverem como o Entidade Social que se tornou imprevisível e desconhecida para a própria Lei que a tudo e a todos rege, como adoravam em seus mantras.

O fato é que Manuel podia ser um bicho dos mais evoluídos, mas também não era burro. E sabendo das controvérsias que ocorriam na comunidade, convidou João para uma sessão a sós.

Manuel, de início, tentou. Mas aquele ser gerava uma baita interferência. Ou não tinha nada ali que Manuel conhecesse, ou tinha tanta coisa, que era impossível de identificar o que fosse para sua leitura sutil. Então, Manuel começou com seus aforismos e charadas e revelações sobre isso e aquilo. Rapidamente, Manoel percebeu que as respostas de João eram tão inusitadas que parecia fazê-lo viver em outro mundo, completamente desconhecido de Manuel. Então ele se entregou à única coisa que poderia fazer: conversar, franca e abertamente, de igual pra igual.

Sobre esta conversa ninguém sabe, e todos os iniciados de sua comunidade evitam falar. À boca miúda, dizem que ouviram gargalhadas, choros, cochichos e berros de todos os tipos. Não entendiam nada. Sobre esta conversa, horas se passaram enquanto invenções corriam à solta sobre o que Manuel poderia estar fazendo com João, numa espécie de defesa (ataque mesmo) contra à vergonha que João os fizeram passar.

Demorou, mas Manuel finalmente entendeu que aquele ser era diferente de todos os outros que já conhecia. Não era um elemental de algum reino da natureza, anjo ou demônio de qualquer categoria, iniciado, adepto ou iluminado, um ser de qualquer outra hierarquia, não veio dos mundos internos ou de outro canto do universo, não foi gerado em Badagas, Duat, Agartha ou Shamballah, não habitou Sirius, as Plêiades, Cruzeiro do Sul ou a constelação de Órion, não pôde ser entendido como essas crianças cristal, índigo, arco-íris ou qualquer outras dessas definições que lhe deixam ainda mais distante do que ele realmente era: simplesmente e maravilhosamente, humano.

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