Impossível de acontecer, #devir33

No início, queríamos apenas ser mais populares, conquistar mais curtidas e seguidores. Era nosso ganha-pão. Com milhões de pessoas nos acompanhando éramos remunerados pela visualizações das propagandas. Isso no Youtube. Com o Facebook e Instagram conseguíamos fazer parcerias divulgando-os aos nossos seguidores. Tudo isso não somava muita grana, mas ajudava a pagar as contas.

Até que percebemos que as zueiras tinham um alcance muuuito maior. Sabe aqueles memes que circulam por aí, alguns até tirados das mídias sociais para espalhar pelos grupos de Whatsapp? Esses eram os que realmente pegavam. Começamos a rastrear onde esses memes começavam e eis que chegamos na periferia na internet. Não, não aquela deepweb da qual já deve ter ouvido falar. Estou falando de grupos e fóruns compostos quase que em sua totalidade por uma molecada extremamente criativa, que no Brasil tinha como chiclete o funk, o grafite, as drogas e sexo. Descobríamos uma espécie de 4chan brasileiro, não um, vários.

Depois de uns meses interagindo com a rapaziada, teve a eleição do Trump. E aí sacamos algo que mudou completamente nosso negócio. Todos os memes que viralizam pela internet, iniciavam ali, com aquela molecada, em discussões sobre como zuar assim ou assado, e então boom!, você tinha milhares de pessoas criando memes diferentes sobre aquela zueira e que, dali, começavam a espalhar pra todo canto conhecido da internet.

Levantei a sobrancelha e comecei a acompanhar esta questão política mais de perto. Até que descobri o seguinte: esse pessoal é que eram os verdadeiros influenciadores da opinião pública. Não importava se real news ou fake news, depois de um tempo, não eram somente aquelas garotada que conversava sobre as ideias que começaram nesses memes zuados, mas sim a própria Globo que engolia a notícia. No mínimo, pitoresco.

Quer dizer então que esses caras influenciavam pra kct os destinos políticos no Brasil. Fechamos com a galera de por nossa máquina pra trabalhar pra política. Aí é que começamos a ver as verdinhas entrando.

Esses zé manés da política brasileira são os caras mais oportunistas da face da Terra. Dão o que tem e não tem para o milagre eleitoreiro acontecer. Aliás, nem precisa ser eleitoreiro. Quando começamos a conseguir influenciar o tipo de notícia que poderia correr na próxima semana, isso já era ótimo para os negócios, qualquer negócio.

Claro que guardávamos isso a sete chaves. Inclusive, sem esses caras saber, toda conversa com seus lacaios (sim, nunca conversamos diretamente com esse bando de cuzão), era gravada. Se alguém viesse chegar junto de nós, tínhamos algumas cartas na manga.

Só que a coisa toda cresceu demais. Sabíamos que já tínhamos perdido o controle da bagaça, mas nunca admitimos. O lance é que a interação era tão alta em virtude do tipo de meme “zueira política”, e depois usávamos nossa plataforma para lançar notícias, vídeos mesmo, validando a zueira, que a coisa se tornava um bicho-vivo dali pra frente.

Para todos os efeitos, circulava nos bastidores que nós éramos os responsáveis não só pelos furos, mas pela mágica de fazer viralizar qualquer coisa. Teríamos descoberto o tipping point para fenômenos de rede? Será que poderíamos colocar milhões de pessoas nas ruas se quiséssemos, podendo então manipular comportamentos de massa, encaminhar as decisões políticas para onde queríamos, fazer nossa revolução através dessa imprevisível descoberta que começava no lugar mais rejeitado e menos relevante aos olhos dos agentes tradicionais?

Queríamos mudar o Brasil. Acender um pavio para a mudança faria mal ou bem? Não sabíamos. Mas nem fazíamos ideia se o pavio poderia explodir a dinamite. Nosso segredo permaneceria entre nós, e decidimos tentar.

Não queríamos viver num estatismo, nem de esquerda nem de direita. E essas eram as opções mais viáveis de ganharem as próximas eleições. Da direita, uma tropa de robôs incontroláveis pelo representante eleito mostrava-se uma verdadeira batata quente. A qualquer momento alguém iria gritar “queimou!” e tudo poderia sair, ainda mais, do controle. Uma espécie de religião, conservadora e moralista, que se defrontava com outra fé, uma ideologia e projeto de poder que, da mesma forma, iria autocratizar o regime.

No meio de tudo isso uma força tarefa policial cortava todas as cabeças, inflando uma opinião nada humana de que nenhum corrupto presta. Tal como a rainha de copas, diziam: “Cortem as cabeças!”. Alice horrorizada buscava desesperadamente uma saída, até que encontrou o coelho, sorrateiramente chamando-a para seguí-lo.

Não bastava produzir fake news e fazer as mídias tradicionais engolirem com satisfação nosso conteúdo. Tínhamos que ter um estopim para auxiliar um enxameamento, quem sabe como aquele de 2013.

O cenário eram duas religiões de fanáticos brigando entre si, e uma força policial que, apesar de estar fazendo um bom trabalho, errava ao agir politicamente. Na cabeça das pessoas eles se tornaram o que nunca poderiam ser, um agente político. Tínhamos que pôr fogo na casa inteira.

Para os conservadores de plantão, gritando por ordem, progresso e intervenção militar, nada melhor que colocar o representante deles no poder e desmoralizá-lo depois. Os milicos, ah os milicos, esses tinham todos os rabos presos, não queriam mexer em nada. Não tinha general nem maçonaria com coragem para fazer acontecer. Iriam ficar quietinhos, na deles. Até porque uma merda dessa não passaria pela garganta de nenhum brasileiro.

Então adotamos a seguinte estratégia. Vamos colocar a direita na presidência. Ao mesmo tempo, damos ibope para a força tarefa. Nosso objetivo é criar pressão para que comecem a investigar quem vai ganhar. Com a esquerda, ganhamos a confiança pelas costas da direita, dizendo secretamente que deixaremos a direita entrar, mas na sequência faremos um movimento para derrubar o recém-eleito presidente, com o apoio da força-tarefa, a qual eles também devem pressionar. Os eleitores do novo presidente se revoltarão com aquilo e irão querer depô-lo. Seu representante macho e os milicos, todos sujos, viram farinha do mesmo saco, mesma estratégia da esquerda quando começou a se dar mal. Então a esquerda vai apoiar o movimento nas ruas, e querendo ou não, esses caras ainda tem quase que a totalidade das universidades, jornalistas, artistas, funcionários públicos e o próprio povão, na mão. Só que as ruas já estarão vacinadas contra a esquerda, porque nós mesmos voltaremos com a ressurreição dos memes que mais causaram contra eles. Um meme trazido dos mortos em um novo contexto, soa como verdade na mesma hora que bate no seu zapzap. E tudo isso muito regado ao poder da nossa máquina distribuída. Ficavam algumas questões: Onde todos podem se encontrar? Qual o ponto em comum? Longe das gritarias, das ideologias, dos fanatismos, dos moralismos, o que queremos?

Vamos sim criar os gifs animados alimentados pela liberdade de opinião, que os problemas da democracia se resolvem com mais democracia, que nosso coração não se acha mais na política brasileira, que não nos sentimos representados, que precisamos de mudanças estruturais. Vamos propor nos conectarmos com nossa humanidade em comum, com a aceitação do outro, respeito mútuo, com o querer o bem, gentileza gera gentileza. Vamos expor as nossa fraquezas humanas em comum, e que não existe salvador da pátria, líder revolucionário, milagre divino. Todos erramos, e nisso está nossa humanidade.

Não sabemos onde isso vai dar. Não sabemos se um enxameamento realmente poderá causar. Mas se tivermos sucesso neste empreendimento, no auge, quando o conforto da paciência estiver aquecendo nossos corações na rua, nossa resposta será o pedido de uma nova constituinte, para que uma nova política, sintonizada com a sociedade-em-rede do terceiro milênio, possa emergir.

Explorador de uma nova visão sobre o humano em nós. Ativador de campo. Artista da percepção. Filósofo intuitivo. O que ele mostra… você não consegue desver.

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