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Não dava mais. Passava mal em todo lugar que ia. Naquele estado em que me encontrava as pessoas sempre me olhavam com estranheza, com uma certa ojeriza. Não aguentava mais ser visto daquele jeito. A verdade é que já não conseguia mais esconder meus sintomas. Tive que procurar um médico.

Felizmente, pude ser atendido imediatamente. Logo na triagem, colocaram uma etiqueta vermelha na minha ficha. O caso parecia grave.

Fui falar com o médico. Me cumprimentou e estendeu sua mão. Pedi para aguardar um pouco, joguei um pouco de álcool-gel para limpar quaisquer germes.

– O senhor trabalha em algum lugar com risco de infecção? – ele perguntou.

– Ah, o senhor diz por causa do gel? Não, eu… – e ele me interrompeu.

– Não, pergunto porque o senhor está todo de branco, camisa, calça, meias, até seus sapatos…

– Não… eu gosto de me vestir assim, é algum problema?

– Não sei. Vamos ver.

Observei que a sala dele era bem diferente. Não era clean, sabe? Ela não tinha ângulos retos, as paredes eram todas onduladas. Coisa estranha.

– O doutor não se incomoda trabalhar o dia inteiro em uma sala assim?

– Assim, como?

– Toda curva, ondulada, não se vê começo e fim, parece tudo meio caótico…

Ele me olhou de uma forma estranha por cima dos óculos, e fez uma breve anotação.

– Ah sim, eu me visto dessa forma todo dia. É como um uniforme pra mim, sabe?

– Humm, é mesmo? Me descreva seu dia, por favor. Com detalhes.

– Bom, meu despertador toca. Ah, configurei ele para me chamar como prefiro. Ele desperta dizendo: Atenção, despertai 8.546.29!

– Peraí, que número é esse?

– É do meu RG. É um número único. Os nomes atrapalham quando precisamos nos dedicar mais ao trabalho. Mas, continuando…

– Vou fazer minha higiene e coloco o meu uniforme, este aqui que o senhor está vendo. Sempre ando com um crachá também. Se algo acontecer comigo, conseguem me identificar prontamente.

– Ok. Em que bairro o senhor mora?

– Eu moro na zona rural. Tenho um pequena propriedade por lá, sabe? A casinha é bem simples, mas tenho uma grande área de terra em volta, assim não preciso ficar ouvindo a vizinhança. Odeio o barulho. Me faz muito mal. Doutor, será que é algum problema no ouvido que tenho? Alguma sensibilidade exacerbada?

– Talvez. Mas me fala uma coisa, o senhor não é casado ou tem filhos?

– Olha, eu respeito muito a família. É uma coisa linda. Mas eu assumi um compromisso pessoal, que dá força para me manter disciplinado.

– Ah é, e o que é?

– Eu fiz um voto de abstinência sexual.

– Entendo. É em virtude de alguma religião?

– Não. Mas eu trabalho fortemente para a nova sociedade que virá, para um novo homem, mais evoluído, honesto, puro, que não se corrompe com os erros humanos. Meu esforço é para que haja abundância para todos, por isso vale todo meu sacrifício atual, seja ele qual for.

– Humm, interessante isso aí. Mas o senhor trabalha então em algum órgão do governo, ou uma ONG?

– Não, isso tudo está corrompido. Eu sou do MPOC – Movimento pela Pátria, Ordem e Cidadania, já ouviu falar?

Logo tirei um panfleto e dei ao doutor.

– Me lembro sim. Não foi este movimento que colocou fogo nos servidores daquela grande revista da nossa cidade?

– Sim, eu estava lá. Veja bem, nós odiamos o conflito. Nos vestimos de branco porque somos uma espécie de guerreiros da paz, somos uma defesa nesta guerra que vivemos. Porém, existem momentos em que não há outra coisa a fazer. Nós não somos violentos, mas o próprio curso dos acontecimentos gera violência, e não nos resta outra ação senão cumprir com nosso destino histórico.

– Me desculpe perguntar, mas aquele líder do seu movimento, como chama mesmo?

– Chamamos ele de Venerável. Mas ele não gosta destes títulos, apesar de merecer todos e muito mais. Prefere simplesmente ser chamado por Toninho. Ele é muito modesto, sabe? Mas é um gênio doutor. Foi capaz de entender a alma humana e os mecanismos da história como ninguém. O senhor pode pegar todos os pensadores juntos, depois junta Marx com Darwin e com Hayek. Ele mostra os erros de todos eles, une o que tem de melhor, e elabora sua visão que é política, econômica, social e espiritual, tudo junto.

– É, deve ser incrível mesmo… – falou o doutor fazendo anotações finais na minha ficha.

– Se nosso país estivesse nas mãos desse homem, aí sim teríamos alguém culto, capaz e inteligente o suficiente para pôr as coisas nos eixos. Não veríamos essas barbaridades que, em nome dessa libertinagem – porque o que temos não é liberdade, né? – as pessoas fazem por aí.

– Bom, poderia aprofundar com mais algumas perguntas, mas acho que não é necessário. Já sei o que o senhor tem.

– E o que é doutor?

– O senhor sofre de autocracite crônica.

– Nossa, e isso é grave?

– Infelizmente, o senhor precisará se ausentar do seu serviço e do seu movimento por um tempo e passar alguns dias só fazendo coisas desnecessárias.

– Como assim desnecessárias? Não podemos nos dar ao luxo de fazer algo que não seja importante doutor! E não posso me ausentar do MPOC, eu tenho uma função muito importante por lá, serei punido se faltar.

– Pois é, aqui está minha receita e orientação médica. Ao menos, com base no seu perfil, tenho certeza de que você as cumprirá à risca. Sete dias com atividades entre pessoas comuns, fazendo amizades com estranhos, andando sem rumo, ajudando sem recompensa, sem horários ou regras para qualquer coisa, crie caso para uma discussão, e tudo mais que está descrito aí. Aguardo seu retorno para avaliação. O nosso aplicativo no seu celular servirá como um diário para registrar tudo de inusitado que acontecerá nestes dias. Tenha um ótimo e inútil dia! – e, assim, ele se despediu com um sorriso irônico.

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