O fim do mundo único, #devir22

Entrei correndo para a palestra desse cara. Todos na universidade estavam falando sobre ele, um expert em inovação. Bom, me parecia legal. Cheguei meio atrasado. Ao entrar no auditório já fui ouvindo:

– O que vou falar aqui não é para as pessoas que estão felizes com a vida que levam, para quem está satisfeito com as coisas como estão, ou para os conformados com a sociedade, para quem diz “a vida é assim mesmo”, ou “essa é a realidade”. Só que também não vou falar para quem deseja mudar o mundo, para quem quer derrubar governos, salvar o meio ambiente ou melhorar a escola… – e soltou um sorriso irônico.

– Que porra é essa que esse cara vai falar? – eu pensei. E ele continuou:

– Quando nós falamos sobre inovação, temos que pensar que não podemos chegar à novas ideias, soluções, comportamentos, fazendo sempre as mesmas coisas. E eu lhes pergunto, o que estamos fazendo do mesmo jeito há milênios?

Os grilos falaram… Há milênios? Como assim? Mudamos pra cacete já, melhoramos em tantas coisas que é uma imbecilidade comparar algo que fazemos hoje com mil ou dois mil anos atrás.

– E quando eu falo há milênios, estou falando de 5 ou 6 mil anos atrás.

– Foi aí que começou nossa civilização. – alguém falou.

– Sim, mas começou esta civilização que conhecemos. E antes, o homem era apenas um primata selvagem? É isso?

A maioria parecia concordar com aquilo.

– Não! Nós temos cerca de 200 mil anos de história humana. Há 200 mil anos estamos aprendendo. Porém, somente há míseros 6 milênios começou algo que faz com que tenhamos comportamentos semelhantes na família, na escola, na igreja, no exército, na empresa, no governo. E agora gostaria que refletissem, o que todas estas instituições têm em comum?

– Em todas tem alguém que manda e alguém que obedece. – a Mariana, que estava ao meu lado, soltou essa. A mina era meio porra-louca mesmo. Culpava tudo que ruim que acontecia no mundo por causa das pessoas que detinham o poder. Acho que se colocasse um desses na frente dela, era capaz de pular no pescoço no mesmo instante.

– Exatamente! Na família monogâmica nuclear dos dias atuais, já sabemos quem manda desde o início não é mesmo? E não só isso, nossos pais querem sempre nos educar. O brincar raramente é gratuito e desinteressado, mas sempre um “educar” para que sejamos alguém na vida. Parece que a gente já nasce com um defeito, e alguém precisa ir consertando a gente ou nos colocando no caminho correto para sermos um sujeito válido. Mas não para por aí.

– Chega a idade da escola, cada vez mais cedo, diga-se de passagem. E na escola é que logo percebemos que resistir é inútil. Rapidamente aprendemos a ser obedientes. Na escola vemos claramente a separação entre dois corpos, um especial formado pelos docentes, e outro corpo de escravos subordinados, formado por quem?

– Pelos discentes? – alguém falou.

– Isso. Por vocês!

Meu-deus-do-céu, esse cara vai ser expulso da própria palestra! O cara vem na universidade falar uma coisa dessas? O clima estava tenso. O diretor disfarçava com um sorriso congelado no rosto. Devia estar se cagando.

– Na escola conhecemos os burocratas do ensinamento. No início, até as chamamos de “tia” para poder, com a ligação com a família, sermos docemente enganados. Depois temos horários, o lugar certo para sentar, a hora certa pra levantar, as regras, as proibições, pra brincar só na hora do banho de sol, não podemos aprender o que queremos, somos violados para sermos competitivos, temos que ganhar, que ser os melhores, enfim…

– Aí chegamos na igreja, onde nos ensinam que nascemos imperfeitos, com um problema que nos torna impuros ou maus, e que temos que mutilar quem somos para chegar à uma espécie de sobre-humano-quase-deífico que seja puro, perfeito, bom e belo. Só que não conseguimos isso sem uma mediação, dos padres, sacerdotes, mestres, gurus ou pastores. Somente com eles é que somos ensinados e subindo no caminho que nos conduz à perfeição.

– Parece a escola. – outra pessoa respondeu.

– E é escola mesmo. Mas aí chega a hora de nos envolvermos com algum movimento social, uma ONG, ou quando os meninos vão para o quartel, ou ainda se algum jovem entra em algum partido inflado pelas utopias de sempre. Todas elas possuem seus líderes e possuem um modo de organização voltado para formar novos líderes. Em todas elas há uma cadeia de comando-e-controle, seguindo rigidamente uma estrutura hierárquica. Em todas elas existe um inimigo, seja ele qual for, real ou imaginário, sob o qual se organizam entendendo que a sociedade é um campo de disputa e a política é uma espécie de “arte da guerra”.

– E então, meus caros, quando vocês vão trabalhar, é exatamente dessa mesma forma, que as empresas que vocês vão formar ou participar, se organizam. Com seus gurus, chefes, disputa interna, competitividade acirrada com seus inimigos – os concorrentes, com sua subordinação aos diretores, depois aos gerentes, supervisores, com suas horas pra entrar e sair, lugares que podem ou não ficar, com as pessoas dizendo o que vocês podem ou não fazer.

Devo dizer que, por mais louco que seja ouvir esse cara, ele prendeu nossa atenção. Nunca queremos admitir, mas a verdade é que o que ele está dizendo faz muito sentido. Como não enxergamos que existe realmente um padrão nisso tudo? Como nossa sociedade ficou tão estragada? E o pior, míope?

– É aí eu volto para o início da nossa conversa. O que há em comum entre família, escola, igreja, empresas, instituições e governos, que começou há seis milênios a se replicar e que temos até hoje?

– Talvez vocês ainda não tenham percebido que, quando se formou a primeira cidade-estado-templo, quando houve a primeira separação entre os que sabiam e os que não sabiam, quando se criou os primeiros intermediários entre o povo e algo maior que todos nós, criamos duas coisas ao mesmo tempo: um modo de nos organizar, que alimenta um modo de nos comportar, e que retroalimenta um modo de nos organizar.

– A hierarquia! O sacerdote! Deus! O poder! Os reis com sua política! A guerra! – todos na sala não paravam de dizer o que podia ser. Depois de algum tempo permitindo uma espécie de terapia com cada um colocando pra fora o que achava, molhou a goela bebendo um pouco de água, e continuou:

– A hierarquia não é a concentração de poder – mostrou um gráfico – mas justamente a intermediação. É aquela estrutura onde existem pontos por onde os caminhos convergem e lá controlam o que pode ou não passar. Não é o dono da empresa, é o gerente. Não é o papa, são os padres. Não é o reitor, são os professores. E assim percebe-se que todas as instituições que criamos e por onde vivemos, são hierárquicas.

– Só que ao nos organizarmos de modo hierárquico, automaticamente somos influenciados fortemente a nos comportar da maneira como nos organizarmos. Por exemplo, você não pede permissão para atravessar a rua pra ninguém. Mas se você vê um guarda controlando o que pode e quando pode passar qualquer coisa, isso muda. Você espera obedecer. E assim é com tudo. Nós tendemos a nos comportar em uma relação de controle-obediência não porque as pessoas são assim, como se fosse da nossa natureza mandar ou ser mandado, mas sim porque o ambiente onde estamos está configurado dessa forma.

– Então é por isso que achamos que o homem é o bicho do homem, que vemos todos com desconfiança, todos como possíveis inimigos, que vivemos como se fosse um estado de guerra? – alguém perguntou.

– Sim. A organização hierárquica só acontece quando precisamos organizar o mundo social para reproduzir algum estamento ou ensinamento, e para criar uma cadeia de comando-controle, instituindo um modo de regulação que é mais autocrático que democrático.

A conversa foi longe, e foi fascinante. Na verdade, em alguns pontos eu achei libertadora. Imagine se livrar da culpa e do peso de achar que você não precisa se adaptar a uma sociedade que percebe que é doente. Ou de entender que muitos dos problemas que passamos não estão nas pessoas, mas que de certa forma somos marionetes de forma como nos organizamos. Qual é a raiz de nosso problemas? – é a pergunta que fica. Até que alguém perguntou:

– O senhor não acha que isso tudo que está falando está ficando cada vez mais sem sentido, em um mundo onde estamos tendo tantas outras possibilidades e modos-de-vida possíveis? – eu sei que este cara era super envolvido em coisas alternativas. Não essas coisas de bicho-grilo e sim uma paradas bem atuais mesmo. Ele fica falando por aí sobre economia criativa, casa colaborativas, espaços maker e outras coisas.

– Mas Felipe, quanto tem disso no mundo? Parece muita coisa, mas se juntar, não deve dar nem 1% das pessoas envolvidas com essas coisas novas que você fala. A maioria esmagadora vive na mesma merda de sempre, é nisso que temos que focar para mudar o mundo! – outra pessoa retrucou na mesma hora.

– Mas você sabe que 1% é muita coisa? – o palestrante respondeu. Estamos vivendo uma época em que small is powerfull, o poder das pequenas coisas. Falando em termos de sistemas complexos, 1% de uma atividade muito interativa é capaz de mudar a dinâmica de toda a rede em que está inserida. Mas eu pergunto pra vocês, mudar o mundo? Precisamos mudar o mundo? Que mundo?

– O que é importante percebermos é que pela primeira vez nestes seis milênios estamos vivendo em uma sociedade glocal, ou seja, local e global ao mesmo tempo, altamente emaranhada por dentro e super conectada por fora. E com este nível de conexão e interatividade, as instituições que por milênios conseguiam com facilidade controlar os caminhos e os fluxos por onde passamos, estão em crise, não conseguem mais, não possuem mais este poder absoluto. É justamente isso que está permitindo termos cada vez mais tantas experiências diferenciadas do que existe por aí como status quo.

– Então não precisamos nos preocupar em mudar o mundo? – minha amiga Mariana falou com certa decepção.

– Não! Sabe por que? Porque você e todos nós vamos perceber cada vez mais que o mundo único estilhaçou. Que não existe mais essa coisa de “o mundo” em termos sociais. Que existem vários mundos possíveis. E ao invés de precisarmos entrar numa espécie de luta para mudar o mundo, temos cada vez mais liberdade e as possibilidades de criarmos nosso próprio mundo e de sintonizar com aqueles que já habitam nestes novos mundos, que estão em em todo lugar, pois o local conectado é o mundo todo.

– Então, eu lhe pergunto: O que você está fazendo? Esqueça isso de mudar o mundo. Crie o seu!

Explorador de uma nova visão sobre o humano em nós. Ativador de campo. Artista da percepção. Filósofo intuitivo. O que ele mostra… você não consegue desver.

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