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Estávamos já deitados na cama. Eu, vendo aquela série no Netflix e ela, no seu celular, pra variar.

– Você sente-se um latino? – ela pergunta.

– Que é isso? Se eu acho que sou o Latino? Tá louca? – respondi dando risadas com o trocadilho. E a conversa continuou.

– Deixa de ser bobo, um latino, um latino da América Latina. Você se sente um latino?

– De jeito nenhum. Você me pergunta isso e não faz sentido algum para eu pensar uma coisa dessas.

– Estou lendo aqui que realmente a maioria dos brasileiros não se sentem latinos, tal como as pessoas que nascem na Argentina, Peru e outros países, se sentem.

– Acho que esse artigo aí deve abordar isso em outro sentido, mas eu não me sinto latino porque, da mesma forma, não me sinto nem brasileiro!

– Como assim? Você nasceu no Brasil, não foi?

– Sim, mas isso tudo é uma invenção. É claro que eu nasci num país chamado Brasil, portanto, sou brasileiro. Mas eu não me sinto brasileiro porque o Brasil, como qualquer outro país, é uma invenção.

– Ah, você é maluco demais.

– Você é católica?

– Como assim, você sabe que nem acreditar em deus eu acredito.

– Pois é. Para mim, dizer que sou latino ou brasileiro, é acreditar que exista esta invenção que chamaram de Brasil ou América Latina, e eu não acredito nisso, tal como você não acredita em deus. Não faz sentido alguém dizer que você é uma coisa na qual acredita, entendeu?

– Entendi… mas você é brasileiro, certo?

– Sim, já disse, no papel, pela legalidade, sei lá, sou brasileiro. Mas tenho que respeitar isso como respeito qualquer lei, outra invenção. Essas coisas não existem, apesar de muitos guiarem suas vidas com base nisso. Eu não. – E continuou:

– Para mim o que existe são as pessoas, e as pessoas com as quais nos relacionamos formam nossa ideia de comunidade. Como é que podemos dizer que são brasileiros todos que nascem dentro dessa linha imaginária que chamamos de Brasil, ou ainda mais, nessa outra linha imaginária maior, que são latinos, se não temos identidade ou formamos uma comunidade com essas pessoas?

– É verdade, amor. Falam tanto que dentro do Brasil têm tantos outros brasis, né? Falamos de forma diferente, vivemos diferente, pensamos e sentimos coisas diferentes de acordo com as várias regiões que existem pelo Brasil.

– E agora, você aí, toda revoltadinha, que não gosta de padres, pastores, gurus ou sacerdotes, vai gostar de ouvir isso. Olha só. Já pensou que toda criação de identidade nacional é uma operação mítica e sacerdotal com o passado?

– Tá louco? De onde você tirou isso?

– Hehe, quero só mostrar uma outra visão da coisa. Quando se fala que o judeu é um povo eleito, ou qualquer outro povo, você deve saber que isso é uma invenção. Mas esta invenção tem a ver justamente com a criação da ideia de nação, de criar uma identidade nacional. E pra se criar isso, é preciso uma certa engenharia criminosa. Com os judeus, foi na corte de Salomão que tudo isso foi criado, projetando sobre David, o messias, um direito divino que, por decorrência, sucedia com Salomão. Outro exemplo, veja Platão, que foi puta engenheiro de ideias autocráticas e fez exatamente isso com sua República, não só inventando, mas contando mentiras deslavadas pra justificar que um sistema de castas que provinha de idade de ouro na lendária Atlântida, era o melhor sistema político para a Grécia, num claro ataque contra a democracia que ali já tinha um papel importante.

– Humm, pode ser, mas não entendi direito isso ainda.

– Resumindo de alhos pra bugalhos, é simples. Para se criar uma identidade, primeiro você inventa um mito no passado. De preferência, alguma coisa que poucos tinham acesso, como uma certa casta de iniciados, por assim dizer. Esta invenção de um novo passado é o que vai justificar as ações para o futuro pretendido, que é um prato cheio para autocratas. Então, a partir deste mito, você mostra como em nossa história nos afastamos de nossa condição ideal ou utópica. Dessa forma, fica claro que, se nos guiarmos pelos preceitos fundantes do mito original, alcançaremos nosso futuro glorioso, que nada mais é que a consumação do passado, daquele mesmo mito inventado. Resumindo, aqui você tem toda a base de qualquer ideologia ou religião. Ao se criar isso, você acaba com todas as possibilidades de qualquer outro futuro que não seja a repetição de um passado qualquer e, o pior de tudo, acaba com nossa liberdade.

Um silêncio de fez por um tempo no quarto. Ela estava digerindo tudo aquilo. E, soltou:

– Acho que agora entendi. Você e suas vacinas contra autocracias, né? Você não se sente latino ou brasileiro, tudo bem, não se sente mesmo, mas é uma negação a querer fazer da interpretação – ou invenção como quer chamar – da história, um caminho mais pobre ou limitado em relação à todas as possibilidades do que podemos vir a ser como comunidade, é isso?

Naquele momento, na TV passava um documentário sobre a vida e obra de Samuel Johnson. E a atenção de ambos converge para a tela luminosa quando ouvem a frase:

“O patriotismo é o último refúgio dos canalhas.”

É isso! – ele diz.

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