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– É sempre um mesmo sentimento que me incomoda muito. Apesar de serem situações diferentes, os sonhos têm isso em comum. Hoje sonhei que ela estava se exercitando sob a orientação de um personal trainer. Ela estava com um top, nada mais. Com exceção do top, totalmente nua. A princípio o treinador não se incomodava com aquilo. Quero dizer, ao menos parecia que estava somente treinando-a, focado em observar se o exercício era executado corretamente, essas coisas. Ela agia de forma totalmente natural, como se o fato de estar com o sexo aparecendo enquanto fazia agachamentos na cara dele não pudesse insinuar alguma coisa, não fosse nada demais, uma criança em sua ingenuidade.

– E você?

– Eu estava ali apenas observando a cena. Mas totalmente incomodada.

– O que lhe incomodava, consegue trazer isso?

– Putz, primeiro, o fato dela não se enxergar nua. Não sei se ela faz isso para me punir, para me magoar ou por puro egoísmo. Ela sabe que odeio isso. Já conversamos várias vezes sobre como isso me incomoda. Então eu fico perdida. Porque na cena que vejo não sei se ela realmente premeditou aquilo, e mesmo sem ter intenção de me trair, se ela quer me mostrar que outros ficam babando sobre ela, ainda mais homens! É uma punição? Quer me mostrar talvez que ela não é uma espécie de propriedade minha ou afirmar sua liberdade? Não sei. A merda é que ela – e tem um pouco de consciência disso – é ingênua nestas coisas. Ela não sabe o quanto seduz e tenho dúvidas sinceras se ela saberia se proteger caso alguém tentasse seduzí-la.

– Protegê-la de uma sedução?

– Eu sei que pode ser ciúmes. Bom, é ciúmes. Mas eu também me preocupo com ela, não quero que tenha situações desagradáveis, indesejadas, algo que possa feri-la física ou emocionalmente. Por isso me coloco neste papel de protetora, pois sei que se ela entra numa situação por ingenuidade ou sem calcular direito os riscos, ela pode se dar mal, e eu vou ter que defendê-la.

– Mas e se ela quiser se dar mal? Ou seja, se ela realmente quiser experimentar tudo isso até o fim?

– Bom, neste caso ela poderia me dizer que é isso que deseja, né? Se a escolha dela é essa, é livre para fazer o que quiser, mas que não me faça sofrer assim.

– Você amaria ela da mesma maneira?

– Claro, só que pra mim não haveria mais sentido o pacto que fizemos de vivermos juntos em fidelidade conjugal. Seria uma pessoa que amo, mas que, particularmente, não conseguiria viver mais junto.

– Vamos voltar à cena. Tente lembrar o que mais lhe incomodava.

– Ah, me sinto magoada com tudo aquilo. Porque o que sinto é uma falta de respeito. Parece que ao se expor dessa maneira, mesmo se imaginássemos que ela não o faz com essa intenção, não respeita uma relação de confiança e de confidência que temos. Agora estou pensando, acho que o corpo para mim é algo vivo, a personificação de alguma emoção, sei lá. E tudo isso é algo que temos muito íntimo, é algo que comungamos em segredo e que nos mantém unidas. Ao expor este momento de confidência, parece que o que temos perde o sentido… Nossa! De onde tirei isso?

– Hehe, muito bom Amanda. Mas o corpo é algo sensual em si. É algo que atrai mesmo, não é? Você, por exemplo, é linda também. Apenas o fato de você se movimentar, seu jeito de conversar, seus olhares, você não percebe, mas é algo sensual e envolvente também.

– Eu sei… Eu sei… Mas acho que tem algo a mais nisso tudo. Não sei explicar.

– O sonho continuava?

– Sim. Continuava na consequência lógica disso tudo. É claro que o treinador se sentiu atraído com todo aquele sexo explícito e investiu na relação. Ela fica meio sem saber o que fazer, e por ser meio indefesa, acaba se deixando levar por ele. Eu não sei se respeito aquilo, pensando que ela realmente desejava se entregar – mesmo sem desejar, como todas fazemos – ou se eu devo intervir e acabar com aquele desgraçado, protegendo-a. Eu me sinto uma completa imbecil, tapada, desrespeitada, com o coração partido. Às vezes sobe nas minhas entranhas um fogo selvagem que deseja apenas fazer o mal, quer violentar e agredir, parece que toda minha humanidade acaba ali e só desejo consumir minha fúria.

– Bom, Amanda, entendo toda esta questão da relação de respeito. Mas pelas outras sessões que tivemos me parece que o respeito que você espera dos outros é, na verdade, o respeito que você exige de você, lembra?

– Sim, em meus pensamentos vivo essa loucura de desrespeitar e exigir respeito. O que desejo dela, é meu o problema.

– Pois é, mesmo sendo algo totalmente ficcional, essa questão é uma realidade para você. E você acaba se desrespeitando por outras vias. Tivemos aqui algumas situação, não é mesmo?

– Minha fraqueza em manter meus compromissos profissionais e, principalmente, os comigo mesmo.

– Tudo bem que aí envolve a formação de hábitos, que não é algo simples. Depende de todo um contexto para lhe ajudar. Mas, veja, você tem muito bem resolvida a situação da perda.

– O que não tenho é da traição que, sexualmente, nem é o maior problema. O que me mata é uma traição de honra, de compromisso assumido, de fazer algo pelas minhas costas, por isso me sinto tanto desrespeitada. Porque se ela quiser um dia quebrar isso, eu respeito totalmente, e por mais que eu sofra, irei apoiar a decisão dela. A liberdade é o que mais valorizo.

– Você nunca faria com ela o que você a vê, nos sonhos, fazendo com você?

– Não sei. Seria o suicídio da minha pessoa.

– E quantas pessoas não somos? Temos que aprender a conviver com todas elas, dentro e fora de nós. Eu conheço vocês duas de longa data. Sei o quanto vocês se amam e respeitam. Qualquer outro profissional diria que seus medos tem a ver com controle e, consequentemente, com insegurança e tudo mais. Mas não é isso, ou pelo menos, não é só isso. Amanda, você quer uma intimidade que ainda não tem. Você quer a liberdade de poder se expor completa, livre e totalmente. Quer poder falar sobre todos seus medos, seu sonhos, seus desejos, sem o medo de ser julgada ou mal interpretada. Quer alguém que lhe apoie, que viaje junto com suas emoções. Quer uma companhia para o poço profundo que todos temos em algum lugar de nossos corações. Você quer escancarar não só seus pensamentos, não só suas emoções mais profundas, mas todo o seu corpo. Quer tocar e ser tocada nos lugares mais improváveis, nas regiões sem importância, o carinho despretensioso, o afeto espontâneo.

Amanda chorava e enquanto soluçava expurgava todo medo e sofrimento que sua alma suplicava. Depois de um longo abraço, saiu da gaiola de suas ficções para voar com todas as pessoas que é e que não é.

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