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O Guto é meu amigo há muitos anos. Eu já me acostumei com ele, mas imagine um cara que, em qualquer coisa que faz, quer sempre tudo certinho. Claro que quando você vai fazer algum empreendimento, seguir a lei, por exemplo, é algo desejável se você não quer ter riscos quaisquer. Mas para o Guto isso não era assim tão simples.

O legal é que o Guto é super empreendedor. Afinal, ficamos amigos dessa maneira. Ainda na faculdade, onde nos conhecemos, já tivemos ideia pra nossa primeira startup e mandamos ver.

Porém, com o Guto não é bem só ter uma ideia e começar a fazer. Antes de começar ele é minucioso no planejamento, quer prever tudo o que pode acontecer, ter alternativas de ações para todas as situações imagináveis, estar preparado para o que não existe.

Pode ser legal, mas isso tira completamente o tesão do projeto. A gente acaba se desgastando e colocando tanta energia em coisas que não são a realidade do momento, prevendo a possibilidade do “se um dia acontecer”, que o projeto em si não anda. Desconfio que o Guto nunca se motivou pelo projeto em si, mas pela possibilidade de poder mergulhar neste mundo imaginário de cenários possíveis com seu planejamento exemplar.

Sempre havia algo a melhorar ou algo que não pensamos, e o Guto era um puta perfeccionista. Me falava da importância de planejarmos e nos prepararmos para cenários possíveis, sobre como este custo de tempo atual nos redime de perdas futuras muito maiores caso tivéssemos que recuar, refazer, pagar pelo não previsto. Claro que tudo isso tem sentido, mas não havia clareza sobre onde a razão a respeito das coisas imprescindíveis começavam a servir de justificativa para continuar desenvolvendo o restante do seu mundo imaginário. E esta falta de clareza nos consumia.

Havia uma outra questão que dilacerava o coração de nossos empreendimentos. O mundo imaginário do Guto não era humano. Não, não quero dizer que ele viva na ficção daqueles contos fantásticos, hahaha, mas o mundo em que essas simulações do Guto ocorriam era o mais cruel que poderia existir. Imagine lidar com os piores tipos de pessoas no cenário mais desfavorável possível. O Guto viva em um war game. O homem é o lobo do homem, todos competem contra todos, é matar ou morrer, olho por olho dente por dente, seguia à risca a arte da guerra, ou a política como continuação da guerra por outros meios, ou os preceitos maquiavélicos, e por aí vai…

Não havia, neste mundo, cenários para a humanidade. Quero dizer, de gentileza, de colaboração, cooperação, ou espaço para soluções criativas, para a inovação, para criar empatia, para sintonizar e sinergizar com outros. No mundo do Guto não havia espaço para o erro e o imprevisível. Nada de coisas humanas. Ele era uma máquina de guerra que transpirava desconfiança, medo e, consequentemente, a necessidade insana de controle.

Guto, ao fim, era um escravo de seu próprio mundo. Uma marionete das burocracias, do juridiquês, das regras e normas, dos casos falidos, das histórias que não deram certo, das lições de moral, tudo com taxas exorbitantes à liberdade, inovação e criatividade, com tantas bagagens extras.

Nunca consegui chegar ao fim de um projeto com ele. O planejamento sempre previa que as chances de dar tudo errado eram muito maiores das de dar certo.

Será que não seriam os índices que nós mesmos criamos que moldam nosso mundo? Quantos daqueles projetos com tantas ideias inovadoras não poderiam ter tido sucesso? Sei que eu parti pra outra. Aquele mundo era triste demais.

Mas o Guto estava certo? Ao menos no mundo dele, parecia que sim. Acontece que tenho dezenas de exemplos para mostrar isso. Era batata. Se o Guto não contratasse direitinho um funcionário, ele sempre sofria uma ação trabalhista. Quando conseguia fechar um contrato com uma empresa, se os termos não fossem tão rígidos quanto ele queria, justamente na brecha contratual ele levava jeba. Se ele não tivesse feito o planejamento financeiro, formado o preço de um produto ou serviço exatamente como queria, ele logo descobria que sua concorrência saiu na frente ou que seu preço era insustentável para manter a empresa.

Os exemplos são muitos, porém, penso que de impacto mínimo diante de tudo quanto ele poderia ter feito. Quase nunca uma ideia entrava no mercado. Morria antes mesmo de chegar na praia. O fato é que se não fosse do jeito certo (o jeito certo dele, que fique claro), algo sempre dava errado.

Mas e todas estas empresas, projetos e ideias que não tiveram nada disso e deram certo, à revelia do modo-de-ver do Guto? Para ele era tudo mentira, não deram certo, ou se positivo, pura sorte. Ou ainda, no mundo do Guto para algo dar certo dessa forma, somente se a pessoa conseguia algum padrinho ou desse um by-pass no que seria correto.

Chegou então uma rara oportunidade. Guto tinha investimento, um tempo razoável e pessoas que acreditavam no seu profissionalismo para montar uma empresa do zero. Ele era o responsável por tudo. Pôde contratar ótimos advogados, contadores, uma assistente, empresas de pesquisa de mercado, uma agência, e tudo mais quanto fosse necessário para que cada passo estivesse previsto e sob seu controle.

E ele fez. Depois de dois anos, o MVP (Minimum Viable Product) dele era muito melhor que o produto final que – não – iria sair depois de alguns meses de atuação no mercado. Segundo o Guto, tudo estava perfeito. Ele se sentia seguro e confiante. Acho que não preciso contar o resto, né?

Aconteceu que pessoas importantes da sua equipe tiveram que sair por motivos variados, entrou um concorrente fazendo algo que ele não havia previsto com a mesma solução que oferecia, a pesquisa de mercado revelou que a soma das opiniões individuais dos entrevistados não correspondem ao comportamento de consumo, a estrutura que montou na empresa se tornou engessada demais para acompanhar a dinâmica dos clientes, sua pseudo-segurança burocrática desestabilizou sua pegada comercial.

Enquanto novos negócios eram feitos a torto e direito pelas empresas que, para ele, trabalhavam incorretamente, Guto permanecia preso e fiel ao seus carcereiros: o medo e a desconfiança. Ele não aguentou. Teve um infarto e precisou se afastar de tudo para recuperar sua saúde.

Do seu repouso, Guto podia apenas observar como as coisas andavam. Porém, havia uma ordem estrita, tanto médica quanto dos investidores, para que ele não se envolvesse em nenhum tipo de decisão ou algo que o fizesse sofrer uma nova descarga emocional negativa.

Os investidores queriam que Guto voltasse logo, com a esperança de que ele poderia colocar a casa novamente em ordem e tornar o negócio competitivo no mercado. Então, como havia ainda fôlego, resolveram manter a atividade da empresa de forma passiva até o Guto se recuperar. Foi então quando aconteceu o imprevisível.

Todas as pessoas envolvidas na empresa começaram a se articular. Aquele dia-a-dia que poderia ser uma monotonia ou um passar-do-tempo improdutivo, tornou-se justamente o contrário. Todo mundo curtia demais o projeto, afinal, estavam transpirando ele há meses. E foi esta paixão, este desejo, que espontaneamente motivou o pessoal para mudar aqui e mexer ali. Sem nenhum tipo de chefia, orientação ou planejamento, colocaram o produto na pista.

Todos os feedbacks que tinham era incorporados na forma de aperfeiçoamento, melhorias ou alterações em relação ao projeto inicial, praticamente em tempo real. O reforço positivo de feedback para cada vez que devolviam o produto aos seus clientes, alimentava ainda mais a confiança entre todos e um estado de ânimo incrível: criativo e colaborativo.

Novas ideias foram surgindo e a equipe ia se subdividindo e somando a todo momento, emergiam inúmeras lideranças que mudavam para cada parte do projeto, de acordo com a experiência, o conhecimento ou mesmo os insights que cada um tinha.

Bom mesmo era quando, devido à alta interação que se estabeleceu entre todos, conseguiam chegar em soluções que nunca ninguém ali imaginou pensar sozinho. Uma espécie de inteligência coletiva emergiu, podemos dizer. Mas o melhor mesmo era a emoção que compartilhavam.

Guto, só podia observar. Ficou muito descontente com o pouco que soube, mas no fim das contas, ele e os investidores viram o resultado. E este resultado fez com que, quando Guto voltou, tivesse a orientação de que a gestão deveria continuar daquela maneira.

Não tinha como. Quando ele voltou à ativa, havia um ímpeto de querer mandar, controlar, medir, vigiar, ordenar. Havia uma necessidade implícita de exigir obediência e chefiar. Mas algo estranho aconteceu. Não é que o Guto não conseguia ter este comportamento no novo ambiente da empresa, simplesmente, era desnecessário, não fazia sentido, se tornou obsoleto.

O fato é que o Guto começou a se comportar tal como todos os outros. O ambiente permitia isso de uma maneira, para ele, inexplicável. Porém, era muito melhor, ah como era! Muito mais feliz, com menos pressão, sentia mais a confiança das pessoas nele e ele nas pessoas. Sem precisar de nenhum tipo de manifesto, declaração de propósito ou de regras de conduta e normas pré-estabelecidas, o que poderia parecer caótico para quem vê de fora, era uma dança em perfeita sincronia da equipe.

O coração do Guto agradece.

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