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Verônica é uma arquiteta. Em seu escritório trabalha com mais duas pessoas. Uma que ajuda no atendimento e outra que dá uma força geral nos projetos. Verônica está deprimida, ansiosa e sufocada.

Adora o que faz. Ser arquiteta foi a realização de um sonho de criança. Porém, ela não parava de pensar no que poderia ter acontecido para ela se sentir desse jeito em relação ao seu trabalho. Ela já culpou tudo e todos. O problema era o capitalismo, a busca pela sobrevivência, a burocracia necessária, os clientes, os fornecedores, os pedreiros, a má remuneração, o trânsito, as mídias sociais, a vigilância digital, a CIA, a falta de tudo, de profissionalismo nas relações, de competência, de conhecimento, de experiência, de dinheiro, de respeito, de tempo, mobilidade, até a falta de noção.

Mas Verônica passou a perceber outras nuances disso tudo. Fazer a mesma coisa há 23 anos, cansa simplesmente porque não somos os mesmos de tantos anos atrás. Nossos sonhos não são os mesmos de criança. Mudamos. Tornamo-nos novas pessoas. Que sociedade é esta em que vivemos, que deseja nos congelar no tempo e mede o sucesso através de quem consegue se manter anos e anos no mesmo negócio?

Os desejos dela foram morrendo. E esta morte de suas potências, do devir que poderia existir, foi minando sua humanidade. Nos últimos tempos, Verônica manifestou um novo desejo: fazer cerveja artesanal. Os amigos faziam, ela lia diversos artigos em blogs especializados e assistia vídeos no youtube. Mas esse refresco estava sempre entre um atendimento e outro, entre o abrir e fechar arquivos no AutoCAD.

Qual é a coragem necessária para mudar de vida? Para assumir quem somos e o que queremos? Para dizer não ao que deixou de ser essencial? De onde você busca a força para dar o passo em direção a um novo mundo, desconhecido e inexplorado? Quem habita o profundo do abismo?

Verônica resolveu tentar e optou por um caminho calculado. Ela simplesmente escreveu em um papel a situação em que, se tudo desse errado ao realizar esta decisão, o que ela faria. Isso foi um ótimo-duplicado. Primeiro, percebeu que se tudo desse errado ela tinha muitas outras possibilidades de ação e, principalmente, que a emoção que carregava de uma possível falha era muito pior do que realmente poderia ser. O dragão imaginário do caminho errado agora parecia uma inofensiva lagartixa. E respirou aliviada.

Segundo, percebeu que não tinha como – e talvez não precisasse ser tão radical – a ponto de abandonar tudo.  Tomando esta situação como um desafio, ela começou a pensar em como hackear o sistema ou o modo-de-vida que a impedia de realizar seus desejos.

Por que ela não conseguia fazer sua cerveja artesanal? Seu trabalho consumia todo seu tempo. Ela não tinha como poder sair e se ausentar por algumas horas ou por um dia que fosse para se dedicar à isso. A necessidade de levantar os recursos para tanto se tornaram secundários diante da do seu principal problema: tempo e mobilidade. Bingo!

Seus esforços passaram então a focar sobre como conseguir ter mais tempo livre e a possibilidade de poder sair, estar em outros lugares, fazendo outras coisas, aquelas que vinham de encontro com seu desejo, sem comprometer seu atual negócio.

O chavão de que a maioria das pessoas vivem correndo atrás do seu próprio rabo passou a ser encarado com uma seriedade que ela nunca tinha dedicado. E a pergunta essencial passou a ser: isso que estou fazendo contribui efetivamente para o resultado final? Esta resposta poderia ser um bom caminho para a conquista do seu almejado tempo extra.

Verônica queria saber se ela estava realmente se ocupando com coisas desnecessárias e também se os seus afazeres eram eficazes para atingir a conclusão do seu trabalho. Descobrir isso foi muito mais complicado do que parece. Temos uma vaga noção do que fazemos em nosso dia-a-dia e, apesar de nos lembrarmos das coisas mais significativas, preenchemos o tempo dedicado à elas e entre elas com… nada. Parece que todo aquele tempo foi dedicado a resolver algo importante quando na verdade o que você fez para a solução do problema durou muito menos.

Outra coisa que ela foi percebendo é que todos entramos no piloto automático. O ambiente de trabalho, tal como está configurado, e os tipos de relações que ela estabelecia recorrentemente com os clientes, fornecedores e sua equipe, moldavam seu modo-de-agir. Na verdade, não pensamos para fazer o que temos que fazer. Simplesmente agimos e em 99% das vezes não damos nem a possibilidade de ponderar para fazer uma escolha e poder dizer não.

Então mais duas coisas foram importantes para ela poder criar tempo livre: mudar seu ambiente de trabalho para que este influenciasse positivamente o comportamento desejado e, ainda, planejar seu dia com as atividades realmente importantes, dando um espaço de ponderação para todas as outras coisas que surgem como urgentes (e que na maioria das vezes não são importantes), ou de forma não-planejada, tivessem a possibilidade de receberem um não.

Depois de algumas semanas, sua briga entre se manter firme, observando tudo o que fazia, ou entrar no automático das coisas desnecessárias, estava chegando ao fim. Verônica estava adquirindo uma grande clareza sobre seu negócio, como nunca teve antes. Percebeu que se mantinha ocupada como uma forma de dizer a si mesma que estava cuidando de algo importante. Viu como se sabotava preenchendo todo seu tempo com atividades que pouco contribuíam para a efetividade dos seus projetos.

Chegou o momento de fazer uma limpa nas suas atividades. Durante seu processo de descoberta e observação, um amigo havia falado pra ela do princípio de Pareto. O que ela sabia, é que esse tal de Pareto era um matemático que percebeu um padrão: 20% das vagens que ele plantava na horta da sua casa sempre davam próximo de 80% das suas ervilhas. E Pareto, empolgado, começou a levantar dados diversos e percebeu que este padrão poderia ser aplicado a quase tudo.

Será que 20% das atividades que Verônica fazia poderiam ser responsáveis por 80% do resultado? Isso seria um ganho enorme de tempo! E, realmente, reorganizando tudo com o pensamento focado, a maioria das coisas eram simplesmente mais um “passar o tempo”.

Falando em passar tempo, havia uma atividade que, apesar de importante, se tornou viciante. A consulta frequente ao email e mídias sociais. Todo o relacionamento de Verônica com seus clientes e fornecedores se dava por aí, no meio digital. Era rotineiro parar a todo momento o que estava fazendo para dar uma olhadinha rápida aqui e ali. A olhadinha acaba se transformando em vários e vários minutos de navegação.

Parou com isso. Consultava emails e mídias sociais com um tempo determinado e apenas duas vezes ao dia. Orientou sua atendente a ligar no celular para assuntos urgentes, e clientes e fornecedores fariam o mesmo se fosse realmente importante. As inúmeras reuniões, tão imprescindíveis, foram drasticamente reduzidas, pois a maioria das coisas eram possíveis de se resolver neste contato virtual. E quando havia necessidade de um encontro de trabalho presencial ele era muito objetivo e prático, com a maior parte dele era voltado para resoluções e não para discussões e elaboração de ideias.

Resultado? Muito menos estresse e menos ansiosa. E ninguém morreu por ela ter demorado – em pouquíssimos casos – um par de horas para responder um email ou uma mensagem no whatsapp (a propósito, aboliu as notificações sonoras no seu smartphone, uma espécie de tortura da síndrome da onipresença). E o melhor de tudo, ganhou muito tempo e passou a perceber a importância de estar focada no que está fazendo no momento ao invés de se ver como um canivete suíço multi-tarefa.

Tudo isso fez um bem imenso à Verônica. Sim, ela ganhou tempo e mobilidade, mas também ganhou muito mais saúde! Mas, com a clareza que estava tendo do seu negócio, ela percebeu que poderia mais. E isso envolvia abrir mão de algo que ninguém topa: dinheiro.

Como assim, né? Normalmente pensamos que ao termos mais dinheiro, poderemos usufruir mais as nossas vidas, teremos o que Verônica queria, tempo e mobilidade. Assim, trabalhamos como loucos acreditando na falsa promessa de um futuro desejado, mais livres e felizes. O que ninguém percebe é que você compromete os melhores anos da sua vida trabalhando ao invés de estar usufruindo. E que, nesse pique que todos ficam, o dinheiro que você ganha acaba sendo diretamente proporcional ao tempo que você precisa se dedicar para continuar crescendo e manter o que ganhou. Temos exceções, é claro. Mas não era o caso de Verônica.

A dúvida era se Verônica devia ou não contratar mais uma pessoa para sua equipe, terceirizando alguns serviços que somente ela fazia. Sim, a princípio, ela iria perder uma boa parte da sua renda. Mas o que era mais importante para ela? Ter um pouco mais de dinheiro e passar mais alguns dias no escritório, ou ganhar menos, mas poder dispor de praticamente dois dias a mais para… fazer cerveja artesanal ou qualquer outra coisa?

Contratou. Treinou. Automatizou vários processos dentro da empresa, inclusive decisórios e, finalmente, Verônica está vivendo como uma verdadeira magnata, rs. Ela conseguiu criar uma modo-de-vida no qual precisa trabalhar com a arquitetura apenas 2 dias e meio por semana! E isso, sem comprometer seu negócio, a qualidade do seu trabalho, nem o relacionamento com seus clientes.

Com mais liberdade e feliz, Verônica tem dias se dedicando às experiências com diferentes maltes e lúpulos. Hoje é dia de experimentar uma bela Witbier com as amigas.

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