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– Carol, espero nunca morrer antes de morrer.

Ela lembra do seu avô, uma vida sem vida dedicada àquelas atividades recreativas para a “melhor idade”, bocha, damas, tv, o interminável feed de dores e doenças sem cura inventadas no repente competitivo com seus pares.

– Ser vencido pela vida, não é mesmo?

– É… a maioria das pessoas desistem antes. Sei lá, a aposentadoria parece ser a porta de entrada para a morte. Não deveria ser o contrário? Pessoas idosas não seriam aquelas com mais conhecimento, com a maior experiência, com aquela luminosidade criativa capaz de desafiar o mundo jovem?

– Gregório, a gente morre quando para de criar, de inventar, de imaginar. Nem precisa ter idade pra isso. Conheço muitos jovens que parecem zumbis.

Passa pela cabeça dele a premiação do Oscar dos mais inovadores de todos os tempos, aqueles que desafiaram o comum, o padrão, o medíocre, não apenas pelo desafio do diferente, mas porque o status quo refletia a reprodução de uma cultura que minava sua própria humanidade.

– Isso reforça aquela nossa ideia do outro papo que tivemos, de que uma nova geração é quem cria coisas novas, e que idade não tem nada a ver com isso, lembra? – lembra, Gregório.

– Sim, falamos de pessoas que são super inovadoras até hoje, mesmo que já tenham falecido. Não existe isso de idade ou tempo pra ser inovador. Mas sabe que eu acho que junto com tudo isso existe o medo da morte. O medo é uma forma de prisão, neste caso, na própria vida.

– Só quem tem medo da morte consegue ser controlado. O poder é baseado no medo da morte. Isso me lembra a epopéia de Gilgamesh.

– Gilgamesh?

– Um dos mitos mais antigos da humanidade que, coincidentemente, vem da antiga Suméria, o berço da civilização patriarcal. Esse cara decidiu que jamais morreria. Fez uma jornada épica para vencer a morte, mas fracassou. Então ele começou a edificar obras monumentais como uma forma de manter sua memória viva por milênios.

– Ah, as pirâmides são um outro exemplo justamente disso. Uma obra faraônica que reflete inclusive a topologia do poder hierárquico ou piramidal, e que ainda tinha toda aquela ladainha de conduzir a pessoa pelo reino dos mortos com privilégios diferentes de qualquer outra pessoa tida como profana.

– Tudo pelo medo da morte.

– Você não acha que a cultura patriarcal, mítica, sacerdotal, e a invenção da regulação autocrática, tem a ver com tudo isso?

– Bom, pode ser. Tem quem ache. Uns falam que a origem está na escassez, outro na mudança do emocionar, mas o medo da morte também vem junto.

– Quem não tem medo da morte, neste sentido, é realmente livre. Quando será que a morte passou a ser entendida como o contrário da vida?

– Pois é, a vida é fluxo, e não aceitar o fluxo da vida significa negar a morte também. A morte nunca deveria ser o contrário da vida. Ela faz parte da vida ou, muito melhor, é a coroação da vida.

– A pessoa não morre porque decaiu, faliu, ficou doente, abdicou da vida. Quando ela morre, ela chegou no seu máximo, não é mesmo?

– Penso que existe alguma sabedoria sobre se preparar para a morte. Você se prepara para a morte a cada momento, vivendo em plenitude o que você pode viver. Quando a morte chega significa que você viveu tudo o que tinha para viver, até seu último suspiro.

– É como se disséssemos que a morte é o máximo da vida, o topo. Algo como se você não tivesse mais vida para colecionar, viveu tudo que podia ter vivido.

– E quando a morte chega, esta sim, é a última experiência que faltava para você viver.

– A última experiência…

Gregório e Carol se perdem em seus olhares sem saber se olhavam para o abismo um do outro ou se simplesmente se perderam no infinito daquele momento. Um longo silêncio embala diversas emoções: deles, de familiares, amigos e desconhecidos.

Apenas observam todas aquelas sensações passar.

Quem olha?

Quem enxergam?

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