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Ela foi até a estante repleta de livros. Olhou… olhou… Pegou um e começou a folhear. Devolveu. Pegou outro:

– Ah, este sim!

E se sentou no tapete apoiando o livro sobre a mesa de centro da sala. A Sofia tinha apenas 8 anos, e ela, como qualquer adulto, lê o que quer, se quer e quando quer.

Quando ela precisava de ajuda para qualquer coisa, desde aprender a falar palavras novas ou entender o que alguma sentença queria dizer, ela chamava alguém, perguntava, ou mesmo pedia pra ler junto.

Aqueles livros infantis Sofia simplesmente odiava. Nunca gostou do peso que um ambiente infantilizado exercia sobre ela. Queria mesmo que a víssemos como uma pessoa comum, independente da idade.

Quando leio meu jornal aos domingos, ela sempre me acompanha, pegando os cadernos que eu não estava lendo para se atualizar. Gosta de ler as revistas da mãe espalhadas pela casa, e quanto aos livros, só aqueles que estavam ali na estante principal, que eu e sua mãe também líamos.

Sofia não aprendeu a identificar formas e números para nos agradar. Aprendeu por suas próprias razões, tal como nós aprendemos qualquer coisa. Sofia não foi ensinada. Aprendeu simplesmente porque era livre para explorar, e sua curiosidade lhe proporcionou as descobertas e aprendizados tal como nossa própria curiosidade faz conosco, adultos.

Meus amigos sempre acharam isso um misto de estranho e incrível. Sofia não foi ensinada a ler. Eles diziam que ninguém aprende a ler se não for ensinado, que este é um processo complexo, que exige acompanhamento de um especialista e tantos outros argumentos de um modo-de-viver sufocado. O interessante nisso tudo é que existe um processo muito, mas muito mais complexo, que a Sofia, eu, você, e todos nós aprendemos sem sermos ensinados, sem a ajuda de nenhum especialista, sem seguir qualquer técnica ou metodologia, que é aprender a falar…

Sofia prestava atenção quando os adultos conversavam. Ela percebia que quando falamos entre nós, tratamos isso com seriedade, atenção e respeito. Foi o suficiente para que, toda vez que falássemos com ela com uma voz infantilizada ou engraçadinha, ela logo percebesse que aquilo não era sério, que não merecia a mesma atenção de quando falávamos entre nós, adultos. Observava que quando ela tentava ler para si em voz alta, ela não imitava uma “vozinha bunitinha” tal como nós, as titias e os amigos, faziam. Ela falava como qualquer um fala, naturalmente. Nunca mais falamos com ela com uma voz de taquara rachada que, convenhamos, nos faz parecer débeis mentais.

Os brinquedinhos, os móveis adaptados, os “livros didáticos”, as séries infantis que auxiliam na educação, as adaptações sofridas de músicas clássicas, ajudavam em tudo, menos no desenvolvimento da Sofia. Ela queria mesmo saber do mundo adulto, onde tem gente grande fazendo e conversando sobre todas aquelas coisas misteriosas e interessantes.

Quando ela começou a escrever víamos várias grafias “erradas”. Demorou para percebermos que ela criava seu próprio alfabeto tentando dar sentido às palavras. E que, com o tempo, e muito mais rapidamente do que nossas tentativas de corrigi-la, ela passou a adotar a grafia correta.

E quando ela interpretava erroneamente algo que lia? Pois é, demorou para deixarmos de tentar dizer para ela o que era certo. Demorou para termos a humildade de perceber que nós, adultos, também não entendemos tudo que estamos lendo, que muito do que apreendemos da leitura depende da experiência que já trazemos sobre o assunto. E ninguém fica nos corrigindo. Não queríamos que ela deixasse de curtir a leitura, nem que perdesse a chance de imaginar o sentido de cada palavra.

A imaginação levou esta jovem cientista longe! Cientista sim, pois qualquer criança nasce apaixonada por entender tudo quanto pode do mundo ao seu redor. E veja que conseguem transformar suas pequenas experiências em conhecimentos exatamente da mesma forma que os cientistas o fazem. Elas observam, imaginam, experimentam, testam, fazem perguntas para si mesmas. A partir disso, elaboram suas próprias teorias. Testam novamente, fazem novos experimentos, e buscam aprender coisas novas sobre o que estão fazendo. À medida que aprendem, vão aperfeiçoando sua visão e conhecimento sobre aquela experiência. Na faculdade me disseram, de forma toda pomposa, que isso constitui o método científico. Haha, qualquer criança nasce aplicando o método.

Quando Sofia começou a explorar mais esta liberdade em descobrir, fui exercer minha função, uma espécie de demônio professoral, tentando conduzi-la melhor pelo processo. Pensava que conseguiria estimular novas descobertas. Mas ela percebia, por mais legal e sutil que eu pudesse achar que estava sendo, que alguém queria conduzir, controlar, ensinar. Sim, todas as crianças percebem. Quando me liguei que os interesses dela começaram a ir por outro caminho, quando achei que estava começando a estancar a sua busca e que aquela cientista independente poderia desaparecer, parei de ensinar, e a deixei livre para aprender.

Crianças não adquirem conhecimento, o constroem. Meu amigo Piaget, genial em tantas coisas, errou nisso. Muito das coisas que ele dizia que crianças com determinada idade são incapazes de fazer, se revelaram possíveis através da Sofia e de outras crianças, quando lhe são dados os meios de demonstrarem com ações o que sabem.

O que digo a todos os nossos amigos que são pais: tornem o mundo e as pessoas que nele habitam cada vez mais acessíveis, estimulem a conexão com outras pessoas, lugares, experiências, locais de trabalho e qualquer outro lugar que nós mesmos frequentamos. Ofereçam como “brinquedos” coisas que nós adultos também usamos. Qualquer um de nós sabe que uma criança na cozinha prefere muito mais usar panelas e talheres reais do que brincar com miniaturas.

Aprendi também que não podemos aproveitar qualquer oportunidade de pergunta para logo ensinar mais do que ela perguntou, todos temos essa tendência, mas se a criança quiser se aprofundar, ela vai perguntar mais. Sempre que, sem sermos solicitados, tentamos ensinar alguém, estamos passando duas mensagens. Primeiro, que o que estamos ensinando é algo muito importante e que ela não teve a capacidade ou inteligência de perceber. Segundo, dizemos que o que ensinamos é tão difícil que, se ela não for ensinada, nunca aprenderá.

Sabe o que a criança sente? Uma mensagem de desconfiança e desprezo. E crianças são incríveis em perceber tudo isso. Todo ensino não solicitado é uma mensagem de desconfiança e desprezo. Eu adoro ensinar. Temos uma forte cultura que influencia demais nosso comportamento neste sentido. Mas quando eu descobri isso com a Sofia, comecei a conter minhas palavras.

Crianças aprendem e querem aprender tal como o ato de respirar. É uma vontade inata. Raramente a Sofia diz que quer aprender isso ou aquilo. O que ela faz é olhar para o mundo, para a natureza, e interagir com tudo isso construindo sentidos a partir dessa experiência.

Aprendi muito com Sofia. Aprendi muito com a vida da Sofia. Aprendi, enfim, que quando vivemos a vida, estamos realmente aprendendo.

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