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Estavam Gaia, Cronos e Zeus, preocupados como em nenhum outro momento da eternidade, em plena discussão sobre a humanidade.

Com toda potência que exerciam sobre nós, meros mortais, viam e ouviam tudo quanto falamos, pensamos, sentimos e fazemos.

– Não sei mais quanto tempo temos de vida – falou Cronos em um tom mais pesado que o habitual.

– Como assim? Somos eternos ou não? Aliás, o domínio do tempo não é algo que deveria dizer respeito à você? – Gaia retruca espantada.

– A verdade é que em outros tempos nunca teríamos esta conversa. Estamos enfraquecendo, a ordem que estabeleci está fragilizando-se, voltaremos todos ao Caos. – sua voz saiu entrecortada e um pavor se fez sentir, vindo de ninguém menos que o próprio Zeus.

Vejam o que estão falando – Cronos mostra um vídeo na tela do seu smartphone para os outros.

– Eduardo, a história não vai para lugar nenhum. Nós é que vamos. Quando você vai entender que isso de uma luta de classes eterna não é o motor da história? – o vídeo mostrava uma aparente discussão política entre amigos.

– Ah, mas isso eu preciso comentar! – Cronos no mesmo instante começou a digitar no seu celular. E escreveu:

A história, como tudo criado pela Vontade de Deus imanente no universo, possui suas próprias leis e ciclos. E estas podem ser conhecidas pelos homens que são capazes de interpretá-la corretamente. Então, ungidos como senhores do tempo, filhos meus, são dotados da chispa de minha inteligência divina, tornando-se capazes de dizerem com toda certeza – à luz da revelação do sentido verdadeiro de tudo quanto ainda não foi – para onde a história caminha, antes mesmo que ela se realize.

Todos que acompanhavam aquele live receberam a notificação do comentário de Cronos.

– Viu? – Eduardo respirou aliviado.

A Camila, que discutia isso com o Eduardo, foi a primeira a responder:

Querido Cronos, os que acreditaram que existe um mecanismo embutido na história que lhe dá sentido, achando que eram capazes, portanto, de revelar suas leis, geraram somente sofrimento, ódio e discriminação entre nós. Separaram aqueles que conheciam dos que não conheciam suas leis, ou seja, estabeleceu-se uma relação de poder. Se colocaram como os escolhidos pela própria história em guiar a humanidade, e por mais bons motivos que tivessem, fomos conduzidos para uma autocracia sem limites, com inimigos que nunca mais puderam deixar de existir. Afinal, esta luta já estava escrita no seu próprio ventre – do tempo, da história – não é mesmo Cronos?

O fato é que as preocupações dos deuses não eram sem razão, houveram dezenas de milhares de comentários rechaçando Cronos, outros reforçando o pensamento da Camila. “Nos deixe viver como queremos!”, “Somos livres da sua imanência!”, “Não obedecemos mais suas leis”, eram apenas alguns dos comentários recorrentes.

Cronos sentou-se desconsolado, parecia fraco, abatido, deprimido. Sua imagem piscou algumas vezes, como que falhando. Sua existência estava comprometida.

Gaia sentou-se ao seu lado para trazer-lhe um pouco mais de vida. Que vida? Gaia falhava também. E Zeus olhando para suas próprias mãos trêmulas, disse:

– Se a humanidade não acreditar mais em nós, não seguirem mais nossas leis, não conduzirem suas vidas com a crença de que estamos guiando tudo de acordo com as engrenagens da Lei Divina, todos morreremos…

– Eu mesma, mãe respeitada por tudo e todos, me sinto linchada. Eu que fui a pansofia da humanidade, agora me vejo jogada de lado, servindo apenas ao que chamam de fenômenos naturais. Ah, como eu queria voltar a guia a vida dos homens. – desabafou Gaia, abraçando Cronos.

O smartphone de Gaia apita, e ela foi verificar. Um email havia chegado. O assunto dizia: “As coisas não são como as coisas são”.

E Gaia começou a ler em voz alta, para que Cronos e Zeus pudessem ouvir:

Nós, biólogos, ambientalistas, físicos, químicos, economicistas, enfim, cientistas racionalistas, acreditamos por muito tempo que a ciência poderia dar uma explicação para tudo, inclusive para como vivemos: nossa política.

Isso talvez possa funcionar para vocês, que não são humanos, mas aqui para nós, não deu certo. Queremos viver em igualdade política. Todavia, ao criarmos uma espécie de ciência política, ou se nosso modo-de-vida derivar dos fenômenos naturais, ou ainda, se aceitarmos que ao conhecer plenamente cada um de nós, como indivíduo, podemos conhecer o comportamento coletivo, não há como termos igualdade. Automaticamente, aqueles que conhecem tais ciências passariam a exercer um poder sobre os que não conhecem. Nossas opiniões valeriam mais que a opinião de todos os outros. No limite, Platão estaria feliz com uma sociedade de sábios, meritocrática.

Percebemos então que esta forma de governo nos tira outra coisa que também queremos, a liberdade. Não seremos mais escravos das suas leis. Não nos dividiremos mais, nem definiremos privilégios diferentes entre os que sabem como as coisas são, primeiro porque descobrimos que as coisas não são bem assim, e nosso modo-de-vida não precisa ficar condicionado aos fenômenos naturais, à economia, à uma espécie de natureza humana, ou a qualquer coisa que seja tida como natural na política. Podemos viver como quisermos. Segundo, porque decidimos que aqueles que sabem mais qualquer outra coisa ou assunto, não devem guiar a vida dos que sabem menos.

Querida Gaia, humanos que somos, descobrimos coisas inéditas para suas leis inexoráveis. Quando não somos guiados pela crença de que regras quaisquer guiam nossas vidas, o conflito livre de nossas opiniões cria uma vontade política coletiva. Sentimo-nos todos, sem exceção, empoderados. E descobrimos, com isso, que existe um espaço que se revela público, inclusivo, gerador de commons.

Deixe-nos viver sem um senhor, seja ele um deus, uma ideologia ou um conhecimento. Deixe-nos viver nossa invenção: a democracia.

– Essa democracia! Talvez eu tenha errado ao permitir que me invocassem como Zeus Agoraios, ou da Ágora, nas assembléias onde homens livres pudessem conversar sobre o que quisessem na praça daquele mercado. Essa tal liberdade, essa extensão funesta do Caos que acaba por organizar tudo dessa forma tida como emergente – que eu prefiro chamar de ordem profana – talvez tenham-nos feito perceber que não há um plano divino para a humanidade. – Zeus comentou irritado. E continuou:

– Alguns me viam como um qualquer, uma espécie de amigo, ao invés da divindade sobre-humana e sobrenatural que sou. Arquitetei o universo inteiro sob meus desígnios para que minha ordem pudesse conformar tudo quanto existe. Agora, homens livres se tornaram desobedientes à hierarquia, não seguem seus destinos, não acreditam mais nele, são infiéis aos meus desideratos. Riram do meu plano cósmico, de todos esoterismos que criei, dos mistérios que inventei, e tenho dificuldade de engolir até hoje como aqueles atenienses foram conhecidos: “não são escravos nem súditos de ninguém”!

O tempo foi passando. E a crença desta imanência na história, na natureza, no universo, foi perdendo o sentido. O credo, esta espécie de óculos que busca organizar tudo de acordo com algo que já existe independente da ação das pessoas, foi deixando de aprisionar o futuro e tudo que podia ser.

A ideia de uma doutrina mais correta que outra, da autorização em falar o que é válido, de se conformar ao que nos seria esperado e tido como correto, só tinha valia ao inventarmos ficções para nos separarmos um dos outros. Os inimigos foram morrendo de overdose. A guerra e o mal – cósmico, natural ou histórico –  perderam seu oxigênio e morreram de inanição.

Descobriu-se o sentido de nossa humanidade: a liberdade.

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