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O Sr. Passus despertou. Espreguiça, senta, bebe seu copo de água. Vai ao banheiro e, ao se ver no espelho, se desconhece se reconhecendo. Ele estava 33 anos mais jovem. Estranhou, aquele leve susto colocou seu coração em descompasso mas, enfim, era quem era. Sonolento, sua adrenalina era a mesma ao despertar de um pesadelo no meio da noite. Você estremece, toma consciência do sonho, xinga a situação, vira o travesseiro, e volta a dormir. O jovem Passus fez isso, entrando no banho.

Não lhe interessava continuar ruminando aquilo. Se sonhando ou não, se esquizofrênico ou não, foi tocar seu dia. Raramente ele se prendia ao seu reflexo. Só mais uma pessoa de outra dimensão. Uma existência paralela com suas próprias responsabilidades. Não acolhia o que não lhe dizia diretamente respeito. Dizia que se há um Deus sobrenatural ou uma espiritualidade divina, pouco importava, estava mais interessado em uma espiritualidade humana, terrestre. Deuses e anjos que se lasquem com seus próprios problemas, o que nos humaniza era muito mais bonito de viver. Lamentava sobre os heróis, santos e famosos, estas pessoas que viveram para deixarem de serem humanas, na busca de algo que fosse sobrenatural, super-humano, extraterrestre, divino. Cegos e surdos insensíveis ao que habitava no entre-nós.

Ele foi se encontrar com um antigo amigo que é escritor, combinaram previamente em discutir naquela manhã sobre um livro que ele estava escrevendo.

– Bom dia Rômulo.

– Bem na hora, entra! – disse Rômulo já se dirigindo à mesa com vários rascunhos esparsos.

Passus fecha a porta, senta à mesa, e começa a olhar aqueles rascunhos. Reconhece algo. Mas aquelas palavras escritas pareciam turvas, vivas, não se definiam. Ele tira os óculos e limpa na barra da camisa.

– Veja isso! – Rômulo entrega uma folha ao seu amigo.

As palavras se formavam de acordo com o que ele entendia. A história era inventada em perfeita contemporaneidade com o ato de ler, em sincronia com sua própria ontogenia. Algumas palavras ficavam mudando levemente, de modo escrever outra coisa até fazer sentido para ele. Mesmo assim, uma delas se definiu como senseso, e ele não conhecia o que era aquilo.

– O que é senseso?

Rômulo explicou. Parecia ser uma palavra comum, e não um neologismo. Dentro do contexto da explicação dele, pareceu normal, simples, a palavra fez sentido, tornou-se real.

Aquele livro fora escrito décadas atrás. Passus desconfiou disso logo que leu as primeiras folhas. Só que o Rômulo, empolgado, continuou falando. A história que Passus já conhecia estava se modificando, assumindo outros significados, encontrando novas nuances. O próprio senseso, do qual não se lembrava ou sabia, era parte da memória de Rômulo, fazia sentido para sua própria realidade.

Então, Passus agora se perguntava inquietamente: qual passado foi real? O dele ou o que Rômulo agora descrevia? Apesar de ter fatos que ancoravam a vivência comum que tinham, a visão de como o mundo funcionava e o significado dos acontecimentos eram completamente diferentes de um para outro. Passus percebeu que estava vivendo um momento de 33 anos anos pretéritos, mas não era o seu passado, e sim o de Rômulo. Apesar de ter compartilhado o mesmo tempo com ele, de conviverem diariamente e comungarem confissões, mundos distintos coexistiam. E o dele, para seu espanto, era muito diferente.

Assim seguiu aquele dia, depois de viver o passado de outra pessoa – uma pessoa que praticamente se confundia com a dele – foi percebendo como a memória é recriada a todo instante, como o passado não é um arquivo imutável gravado em um disco rígido para estar sob a leitura da agulha do tempo. Os fatos mudam, e o passado é recriado tanto quanto for necessário para fazer sentido para nós em cada momento. O passado muda cada vez que contamos uma história. E o presente?

Na rua em que agora caminhava, divagando sobre o tempo e a realidade, que de tanto fazer o mesmo percurso já trazia marcada em sua pele fria e cinzenta os infinitos passos do ir e vir, será que ainda estariam lá as mesmas vendinhas, a mercearia do Aércio, a barbearia do Chocolate, as bacias com comida para os vira-latas, o muro pichado com os hieróglifos underground, o cartaz da criança desaparecida no poste junto ao orelhão? Ou tudo isso só estava lá porque fazia sentido para Passus? Porque sua memória assim contava a história, e mantinha tudo igual para que seu mundo continuasse fazendo sentido? Seria tudo diferente e ele não comungava com outras possibilidades reais já existentes?

Não é só o passado que muda toda vez que contamos uma história, mas esta história é contada também no presente para constituir aquilo que conhecemos. Vivenciamos e criamos a nossa realidade sempre de acordo com aquilo que faz sentido para nós naquele momento. O sem-sentido são embarcações de outros mundos potenciais que existem para outras pessoas, em outros mares.

O almoço estava marcado na casa da Aguiar. Vários amigos estariam lá, e foi onde combinou de encontrar sua esposa e filhos. O jovem Passus foi chegando, o churrasco estava sendo servido no quintal.

Logo viu sua esposa com um dos seus filhos, o Artus, conversando com um cara. Peraí. O cara era ele mesmo, Passus, com sua aparência normal, e não 33 anos mais jovem. Eles viram Passus, e o desconheceram reconhecendo, mas trataram como um estranho convidado para o churrasco. Havia mais estranhezas.

Junto ao jardim, reconheceu seu segundo filho, 33 anos mais velho. Será que aquele moleque estava vivendo já o que seria o futuro de Passus? Quem ele era para seu filho? Em qual cosmos social ele viveria?

Talvez boa parte das pessoas com que convivemos somos nós mesmos, de outros tempos, de outras formas, com outras experiências, mas não nos reconhecemos…

Era melhor virar aquela caipirinha, secar o copo de cerveja, e ir pra rede tirar um cochilo, para que o espaço-tempo dos fluxos se encontre com Passus Futurus.

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