O jovem Marx já nasceu velho

Contra a imanência histórica
31 de dezembro de 2016

Lembranças de um socialismo utópico.

Assisti o trailer de um filme que aguardo ansiosamente para ver. Chama-se DER JUNGE KARL MARX (O jovem Karl Marx). Meu amigo e cunhado Felipe Marineli fez a gentileza de legendar em português.

Acredito que será um grande filme. Espero que retratem bem a vida do jovem Marx, que considero um gênio para sua época. Ainda que eu não concorde com sua visão política e social, e muito menos com os meios que acreditou serem adequados para a conquista da liberdade e da igualdade, acho importantíssimo serem produzidas obras que retratem os vários aspectos culturais e ideológicos da humanidade, até porque, este sentimento de querer um mundo mais livre e justo, da valorização do humano independente de sua condição social, é algo que nossos corações comungam.

Já cheguei a pensar, por outros caminhos, que a luta é imanente na progressividade histórica entre explorados e exploradores, elegi pessoas do bem e do mal, adotei a moral do lado certo e pensei que para garantir a liberdade e abundância para todos os meios poderiam ser justificados pelos fins. Me enganava dizendo: os meios colimam nos fins. Já tive uma puta visão autocrática, erigia e organizava hierarquias, me considerava o sacerdote revelador do saber, desvelava o motor intrínseco da história humana. Hoje sei exatamente o que era: BURRO!
Talvez não tanto uma burrice por falta de inteligência, mas muito mais uma burrice agarrada em ideologias que justificavam minha existência como pessoa. Dependia daquilo para existir… Sentia carregar o peso de toda uma tradição milenar, e toda vez a recarregava em conversações recorrentes em círculos internos e na teatralização de ritos que confirmavam o papel mítico dos libertadores da humanidade.

Não foi fácil me livrar disso. Quando descobri o buraco do coelho, aquele instante do blink que me permitiu sair da inércia do meu pensamento, levei anos para entender o que estava vendo e o que era. Mas mesmo depois de entender perfeitamente os problemas daquela ideologia, bem como também entender aquele mundo novo livre de todo aquele peso, eu continuava me comportando como um hierarca. Não bastava uma mudança de pensamento, o corpo continuava descendo a ribanceira no mesmo ritmo!

Foi preciso um esforço, que não sei como nem de onde, que me fez sentir uma mudança física, como se minhas células estivessem morrendo e nascendo novamente. Um processo dolorido que ficou marcado em mim. Depois de meses sentindo essa dor, nasceu uma nova pessoa. Se fosse um membro de uma tribo dos Pirahãs, naquele momento buscaria um novo nome, pois o Marcelo dali pra frente era outro.

Mas voltemos ao jovem Marx!

Há um momento no trailer, em que ele diz:

Até agora, todos os filósofos apenas interpretaram o mundo todo… mas é preciso transformá-lo.

Este trecho deve ser uma referência às Teses contra Feuerbach (1845), quando Marx afirma que os filósofos não fizeram mais que interpretar o mundo de forma diferente; trata-se porém de transformá-lo.

Não sei se o lançamento do filme focando na vida deste jovem poderia ser uma tentativa de estimular a volta de um novo socialismo, talvez resgatando suas origens no socialismo utópico, o qual Marx em sua juventude vivenciou, uma vez que socialismo científico está superado. Se positivo, veio muito atrasado. Falando do Brasil, no início da década de 90 poderia fazer sentido para aquela esquerda desamparada com a dissolução da União Soviética (1991). Hoje então… que ao menos sirva para nosso entretenimento.

A ideia de um novo socialismo utópico como agente transformador deveria focar mais nas pessoas, como um projeto humano a ser realizado, e não em uma imanência na história. Poderia, por assim dizer, abrir espaço para o entendimento da autonomia dos diferentes e inúmeros clusters sociais. Seria uma volta às origens do socialismo, mas num contexto atual e não baseado naquelas elaborações pré-marxistas, que infelizmente não percebia como a eleição de um inimigo, dividindo a sociedade em dois lados, só reforçava ainda mais tudo quanto oprimia a liberdade humana. Augusto de Franco, no raiar da década de 90, fez um esforço no sentido de um socialismo utópico, e cito aqui apenas para ilustrar o que poderia significar isso há quase 30 anos atrás:

Voltar ao socialismo utópico significa pensar o futuro socialista como utopia possível e não como resultado da “ação” de leis imodificáveis (imanentes ou transcendentes à história). Significa estabelecer sobre uma base mais vasta a visão do socialismo, como movimento geral e universal de libertação dos explorados, oprimidos e dominados nas sociedades burguesas ou burocráticas e como luta pela realização da liberdade. Significa compreender o valor da democracia — também da autonomia e da própria utopia — e o seu caráter estratégico na luta pela emancipação humana, assinalar o conteúdo integral da transformação socialista e a dimensão mundial do socialismo como novo sistema social baseado num programa de transformações globais (das chamadas base e super-estrutura das sociedades) e como movimento espiritual da humanidade. Retomar (agora num nível de maior complexidade) a perspectiva utópica, significa, por último, compreender o papel da profecia como prática revolucionária, na denúncia permanente das estruturas opressivas — mesmo aquelas construídas em nome do socialismo e da revolução — e no anúncio de um mundo verdadeiramente novo: Destruens et Constuens. — FRANCO, Augusto. A nova geração (1990).

Para quem o conhece, evidente que o Augusto daquela época era outra pessoa. A sociedade também. Não haviam agentes políticos e sociais que emergiam do seio social como hoje. Não havia ainda uma ciência capaz de tocar no que é realmente social, e não os arcaicos entendimentos da sociologia que ainda navega pelos conceitos de indivíduos, grupos, estruturas, classes etc. Naquela época, os principais agentes políticos eram os partidos, e o PT ainda tentava encontrar o seu caminho de ação em meio sua luta interna.

Augusto pôde acompanhar a dinâmica da sociedade. Se há um texto síntese que ilustra um novo entendimento sobre o que é o social indico este.

E, contrapondo a citação acima, para conhecer o Augusto de hoje, nada melhor que ler A TERCEIRA INVENÇÃO DA DEMOCRACIA.

Portanto, em uma sociedade-em-rede, o que temos são zilhões de sociosferas que agem de forma cada vez mais autônoma, distribuída, interativa, direta, regidas pela lógica da abundância, responsivas aos projetos comunitários, cooperativas, diversas e plurais. Bastaria enxergar isso para perceber como o socialismo científico não tem fundamento nos dias atuais.

A própria Agnes Heller (em A herança da ética marxista), ao contrário de Marx, sabia que não é por nenhuma imanência do desenvolvimento histórico que chegaremos ao fim do sofrimento. Heller afirma que, como o fim não é escolhido mas está posto pela história, não há espaço para nenhuma ética justamente no caso daquela classe da qual se espera que instaure o mundo totalmente moral.

O sofrimento de um homem só poderia ser aliviado por outro homem, não por um deus ex machina, ou situado dentro da máquina da história. Heller nos lembra que o alívio do sofrimento é uma ação presente. Não se pode postergar o alívio do sofrimento para uma futura sociedade ideal, com a instalação da super-sociedade da visão marxista, e muito menos substituir a ação presente para este alívio pelas ações revolucionárias que Marx defendia.

O pessoal da esquerda no Brasil tem histórias interessantíssimas. Dizem de uma época em que você não podia dar esmola, para não atrasar a revolução. Era como se a prática da compaixão e solidariedade (que acredito talvez o próprio Marx não contradiria) despertasse junto um temor de recair em uma postura menos crítica, que serviria apenas pra amaciar a dominação de classe. Ora, deve ter sido um processo desumanizante passar por isso, e é justamente isso que a guerra (entendida aqui como a luta de classes) faz: cria robôs, nos desumanizando a cada ação. Não dar esmola poderia até ser um tipo de gesto político, mas de nenhuma forma seria ético.

O sofrimento de um ser humano só pode ser aliviado no presente, pela compaixão de outro ser humano. Não podemos usar a outra pessoa como mero meio, sob pena de gerar sofrimento à esta mesma pessoa justamente por ser mero meio. Só podemos ter ações realmente éticas se o meio escolhido realizar seu fim. Enquanto o meio não for o próprio fim continuaremos vendo políticas perversas e anti-humanas na história.

 


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