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Eu estava puta. Fui entregar meu trabalho de conclusão na faculdade, que, modéstia à parte, estava incrível. Além de grande conhecimento sobre o assunto, tenho vasta experiência prática. Estudo e trabalho com isso há anos. Então resolvi escrever a respeito na minha tese. Meu trabalho foi negado quando mostrei ao orientador e alguns professores. “Por quê?”, me perguntaram: “Que autor escreveu isso?”. Quando respondi que foi eu mesma, disseram que não podia, somente com citação de autores reconhecidos pela academia.

Então fui conversar com um doutor respeitadíssimo na universidade, mas já afastado das suas funções em virtude da avançada idade. Ele era o tipo de pessoa sempre disponível para conversar. O procurei mais para desabafar que outra coisa. Era um ótimo ouvinte, e você sempre aprendia demais com sua experiência.

— Infelizmente, eu já fiz muito disso, Andreza. Já fui este tipo de burocrata acadêmico que julga somente como relevante o que já foi sancionado pelo nosso tribunal epistemológico e que já tenha seguido toda espécie de ritos e liturgias que prescrevemos. Você é uma belíssima árvore com frutos amadurecidos para a qual fazemos vista grossa. É uma lástima estarmos assim, reconhecendo apenas o conhecimento-ensinado, e não o conhecimento-aprendido.

— Mas a troco de que, doutor? — perguntei. E com um sorriso sarcástico, dentes amarelados à vista, acendeu seu cigarro, e disse:

— Temos a pretensão de achar que protegemos você. É como uma destas seitas — fiz parte de tantas, meu deus — que julgam que o conhecimento compartilhado abertamente pode fazer mal aos profanos não preparados. Então selecionamos o que você pode ou não aprender.

— Então querem me proteger do aprendizado?

— Sim, mas é muito pior que isso, Andreza. Quando se fechou o código da ciência, ao menos o que se reconhece como ciência, seus pretensos padrastos protegeram as pessoas da experiência da descoberta. É o que as religiões fazem, ao lhe protegerem da experiência de deus. É o que as escolas fazem, ao lhe protegerem da experiência do aprendizado. Em ambas, vale apenas a ensinagem que reproduz seu próprio estamento, e não a abertura para a criatividade, inovação, exploração, descoberta, que não possui praticamente nenhum tipo de incentivo ou apoio.

— É verdade, doutor. O que passou a ser considerado como a única ciência possível se estruturou agora, do século 19 para o 20, não foi?

— Imagine que se hoje estivessem vivos Tomás de Aquino, Roger Bacon, Da Vinci, Paracelso, Copérnico, John Dee, Francis Bacon, Kepler, Galileu, Pascal, até mesmo Newton, e tantos outros cientistas, os métodos que eles empregavam, as ciências às quais se dedicavam, não seriam também aceitas pelas mesmas pessoas que negaram seu trabalho de investigação.

— Até eles? Como assim?

— Hoje se fala de “a” ciência, mas sempre existiram várias ciências. Cada uma dessas pessoas tinha métodos particulares de observação, investigação e explicação do mundo, que divergem do código adotado pelos atuais filósofos racionalistas mecanicistas. O que estes fizeram não invalida somente os outros métodos existentes, como já temos uma pré-negativa para qualquer novo método ou ciência que possa vir a ser.

— Hummm, já ouvi falar, por exemplo, que Newton dedicava a maior parte do seu tempo para a alquimia, e, no entanto, não é chamado de charlatão, né?

— Hehe, na verdade, fazemos vista grossa. E não é só Newton. Todos eles tinham métodos próprios de experimentalismo e matematização, inclusive que não constituem uma linha de continuidade ou evolução. E isso dá um nó em todos nós. Além disso, existem várias ciências não-mecanicistas que aos poucos começam a reaparecer. Além da acupuntura, já reconhecida em algumas universidades, temos o caso controverso da homeopatia. Mas, principalmente, tem coisas novas, como a complexidade e o pensamento sistêmico, que seguem métodos bem diferentes de observação.

— Do jeito que o senhor fala, parece até que são seitas que afrontam uma religião!

— E de certa forma o são. Transformamos a ciência mecanicista atual em uma espécie de pansofia. É o novo oráculo dos tempos modernos. Mas não é exatamente dessa forma que se comportam as ideologias, laicas ou não? A ciência adotou um comportamento totalizante, logo, considera todo o resto falso. E isso que você falou é realmente uma grande provocação a qualquer cientista. Me lembra uma frase de Paul Feyerabend, que você já deve ter lido, ao escrever que “a declaração mais provocante que pode ser feita sobre a relação entre ciência e religião é que a ciência é uma religião”.

— Mas, doutor, o que fazer? Isso precisa mudar, não precisa?

— Claro, Andrea. Mas não tenho mais esperanças que isso mude por dentro da universidade. Aqui temos uma closed-science. E para fazer open-science, depois de tantos anos de luta, minha esperança é que isso parta da sociedade, por fora. A verdade é que cada vez a universidade é menos relevante diante de tanto acesso e compartilhamento pela rede digital. E, convenhamos, meu amigo Jean Pierre recentemente tuitou — com muita audácia, mas correto — que as universidades não têm mais o monopólio do conhecimento, apenas do diploma. E tenho visto várias corporações que não contratam mais pela formação que as pessoas possuem, e sim pelo reconhecimento de conhecimento prático dado pelos seus pares. É um movimento que vem crescendo.

— Vivemos uma era de commons, não é, doutor?

— Mais que isso, Andreza. Vivemos uma era em que estamos percebendo que não existe apenas uma realidade, ou uma forma de se fazer as coisas. Cada vez mais, nos conectamos com outras possibilidades materializadas em todo lugar do mundo. Assim como estamos percebendo que não existe esta bobagem de “a” sociedade, também não existe mais “a” escola, e muito menos “a”ciência. Espero que possamos aprender com isso.

Saí de lá com a cabeça a mil.

Aprender é uma subversão. Não só porque é uma afronta à estrutura corporativa acadêmica, mas principalmente porque aprender é um processo que anda de mãos dadas com a liberdade. Por isso mesmo, aprender é sempre livre-aprendizagem. Aprender é sempre algo que parte do desejo, que não tem uma razão utilitária, mas pode ter uma motivação completamente desnecessária. Aprender é mais gostoso junto com amigos, e fazer amizades é um ato de desobediência a estruturas hierárquicas.

Aprender é descobrir. E a descoberta é sempre algo imprevisível com potencial inovador e disruptivo. A descoberta pode abalar todas as estruturas do que conhecemos. A descoberta é deslumbramento diante do desconhecido. É aceitar o medo e nossa ignorância. A descoberta é a oxitocina em nossa humanização.

Nada menos que isso me interessa!

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