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Por um longo tempo temos caminhado. Nosso grupo não é grande. Somos eu e mais 13 pessoas. Algumas amigas, cinco filhotes, dois anciãos e outros homens. Entre nós vive grande alegria. Confiamos um no outro, respeitamos, aceitamos nossas diferenças com sabedoria e muitas risadas.

Dessa forma acompanhamos as outras vidas que convivem conosco. Evitamos a direção do vento frio, o poente nos aquece, escutamos atentamente tudo ao nosso redor. Acompanhamos vários pássaros e animais em suas migrações por este vasto e desconhecido mundo do qual somos seus frutos.

Estamos nos recolhendo à sombra destas árvores, dividindo o calor do ventre destes búfalos com seus filhotes. Poucos poentes antes desse, nós que somos nós precisamos buscar força na carne de um desses fortes e pesados errantes. Assim precisamos, assim fizemos, e nos regozijamos debruçados sob sua carne transformada pelo fogo, preenchendo nossa alma com toda a força e a vitalidade da terra. Passamos todos estes dias em graça, agradecidos pela comunhão que compartilhamos, pela cotidiana dádiva.

Parte da carne ficou para aqueles lobos que, como nós, seguem a manada. Todos somos vagabundos pelo desconhecido. Cada nova montanha, rio ou floresta é uma nova descoberta da beleza que nos envolve.

Foi quando encontramos outros semelhantes a nós. Se vestiam engraçado, falavam diferente mas, principalmente, em seus olhos um terror estranho, medo de nós.

Não entendi bem a palavra: inimigo. O que vinha ser inimigo?

Aqueles estranhos davam atenção somente à um deles. Com um metal na cabeça, coberto por peles e ossos, segurava em suas mãos um longo osso que fica de nós quando não mais nós.

Poderia ser apenas mais uma luta, como qualquer outra. Mas ele mostrava mais. Longe, um trovão falou. Seus olhos adoeceram. Apontavam para mim, estavam desesperados. Ficaram agressivos.

Que medo é esse que acompanhava aqueles outros? O tal, gritava com força, com sentimento ruim, e os outros só faziam, cabeça baixa. Que era isso que falavam: obedecer?

Tudo passou, foram para longe de nós. Corriam mais rápido. Queriam chegar antes? Antes? O que era antes? Muitos outros poentes passaram. Pelo caminho, víamos tristeza, um cheiro fétido. Lobos e mais lobos mortos pelo caminho. Furados, rasgados, batidos. Por que isso?

Vim saber pela amiga que foi ligeira, que a pedra que nos permitia alimentar, na mão daqueles estranhos era uma arma para assassinar. – Uma arma? – perguntei. – Assim a chamavam – respondeu. Mas tudo é pedra, tudo é osso, tudo é como todos temos.

Então ela apertou meu peito. Segurou minha garganta. Olhou o abismo de meus olhos e sussurrou em meu ouvido esquerdo:

– É outro coração que pulsa ali. Não é igual ao nosso. Um coração faminto, que tudo quer pra si, que separa-se do outro, engole voraz tudo que pode pegar, com medo, desconfia de tudo, da luz e da noite, e si mesmo e dos outros. É um outro bicho, não é humano.

Não entendi nada do que ela disse. Em tão pouco tempo, tantas formas novas de falar, tudo não me fazia sentido. Mas, eu senti… A emoção que tinha naqueles estranhos, ela pôde conservar delicadamente e com o cuidado necessário para ela mesma não se machucar. Abriu sua caixa, e me fez sentir.

É a emoção do ato que difere a ferramenta da arma, o caçador do assassino.

É a emoção a parteira de pessoas tão diferentes, de todos estes outros mundos que já vi nos sonhos de todos nós. E, a partir dela, tornam-se reféns do seu jeito de fazer e dizem dotados de uma vã sabedoria e eretos de orgulho: sempre foi assim.

Esta emoção é o leitmotiv das culturas funestas que falam de lobos em pele de cordeiro, quando na verdade personificam o monstro artificial devorador de lobos e cordeiros – e de nós, humanos – que agora percebo como um padrão presente em todas elas.

Não há amor como aceitação plena do outro em um convívio de confiança, e este amor se faz tão sem sentido para estes outros, quanto a necessidade de um inimigo se faz para nós, humanos.

Que todos nós, humanos, sejamos como crianças inaugurando novas formas de ver e viver para não cairmos no esquecimento do que um dia já fomos, do que podemos ser.

Despertei com um sopro forte em meus olhos, e ela me abraçou.

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