Inteligência coletiva não é a soma das galinhas individuais, #devir24

O que eu tenho, doutor?, #devir23
9 de Abril de 2018

— Muito bem, meus caros ouvintes, aqui estamos juntos para mais um fenômeno de inteligência emergente. A plateia está cheia hoje, não é mesmo, Silva?

— É sim, Arnaldo, hoje está bombando! E veja só, elas estão começando aparecer, lá estão nossas estrelas, Maricota, Ricota e Nicota fazendo o reconhecimento do galinheiro pessoal!

— Elas estão demais hoje. Entram com toda elegância e já saem caminhando energeticamente por todo campo. O que está acontecendo, você sabe, Silva?

— Olha, o que me passaram é que elas ainda não comeram, estão presas no galinheiro, porém, o milho está logo ali do lado de fora, pra qualquer um ver. O problema foi que a Eunice, ao invés de deixar aberto, esqueceu o galinheiro fechado.

— Entendi, Silva, entendi. Que pena que a gente não consegue ajudar estas galinhas simpáticas! Todo mundo deve estar querendo ajudar, não é mesmo? Mas não precisa, pessoal, haha, não precisa!

— Você acha que as galinhas conseguem sair deste galinheiro fechado para comer, Arnaldo?

— Que comecem as apostas. Já recebi aqui muitos tweets dizendo que é impossível, que é pura sorte, que galinha não aprende, que não tem memória, mas, Silva, há quanto tempo acompanhamos esse experimento?

— Há quase dois anos.

— Dois anos, todos os meses, sempre com animais diferentes, e não é que eles conseguem?

— Pois é, Arnaldo, estão falando de tudo por aí. Uns dizem que é fraude nossa, outros que é montagem, tem quem acredita que exista uma alma-grupo, mas a explicação mais aceita é a da inteligência coletiva.

— Fala mais pra gente.

— É. Criticam que não tem como juntar inteligência de um animal que não é inteligente, mas os especialistas explicam que inteligência coletiva não é a soma das inteligências individuais, Arnaldo. É uma forma de inteligência que, se fosse somar algo assim, seria na verdade muito maior que a inteligência de qualquer gênio. É coletiva porque só acontece coletivamente. E não precisa haver o fenômeno da cognição para achar soluções geniais, basta haver muita interação, muita troca, e as coisas vão acontecendo.

— É uma inteligência então que surge, que emerge, da interação, é isso?

— Isso mesmo. Mas é como a gente fala aqui. É mais fácil ver acontecendo do que entender, não é?

— Olha lá, parece que está engrenando. Maricota e Ricota estão juntas, mas a Nicota foi pro canto. Ali ela bate o bico. Procura algo, sente a terra fofa. Galinha sente cheiro, Silva?

— Não sei, Arnaldo, só sei que agora a Maricota foi pro outro lado, e, veja só, a Ricota entrou na casinha pra ver seu ovo, Arnaldo.

— Nicota bate as asas, sente a trama da tela na ponta da asa direita, Maricota quer voar, acha um puleiro, e eis que sai a Nicota dando de cara com a Ricota. Ambas batem os peitos e seguem para lados opostos. Maricota faz esbórnia, derruba o pote de água. Assusta a Ricota, que estava mais perto, e ela salta batendo contra a tela. Êpa, veja lá, a tela no topo não está presa direito, soltou-se de alguns pregos, Silva!

— É, normalmente achamos que elas podem ter percebido que lá tem uma possibilidade, mas nem sempre acontece assim, não é mesmo?

— A água vai escorrendo pela terra, Nicota vem seguindo o fluxo e para em frente à porta do galinheiro. Ela tá fechada. Ah, Eunice, você esqueceu! A Ricota pula de novo, chega junto da Maricota no puleiro, empurra ela de lá, Maricota cai sobre o cabo da enxada, a enxada cai sobre a porta, bate na tela, assusta Nicota, que salta e se apoia sobre o cabo da enxada, Silva.

— Arnaldo, que aventura apenas três galinhas conseguem fazer. Veja só quem aparece, o gavião do bairro tá de olho e pousou sobre o muro, Arnaldo.

— Aí não pode, aí não pode. Vai estragar o experimento. O bicho percebeu a movimentação e já chegou junto. Mas olha quem tá vindo correndo, Silva. O Alberto, o cachorro defensor das galinhas, amigo do peito, tá pondo o gavião pra fugir, Silva.

— E não é? Normalmente, os cachorros correm atrás das galinhas, mas este Alberto cresceu junto, virou amigo. E veja lá, o Alberto foi agora beber a água que a Maricota derrubou e escorreu por baixo da porta do galinheiro.

— Maravilha, e lá vão elas novamente. Alberto atraiu Ricota e Nicota, Maricota vai pro outro canto, bate as asas, sente a tela de arame na ponta da asa esquerda. Nicota salta alto, vai pro puleiro, parece que vai cair, opa… se equilibra!

— Veja, Arnaldo, que o desequilíbrio da Nicota parece que assustou a Ricota. Ela bateu novamente contra a tela meio solta. Será que foi proposital?

— Não dá pra dizer, Silva. Mas Nicota salta sobre o cabo da enxada, Maricota vem junto, estão ali. Ricota vem chegando, segue novamente a água que ainda escorre aos poucos pela terra em direção à porta.

— Parece que fizeram uma pausa, não é? Até o Alberto saiu, não vi pra onde foi. O que você está achando, Arnaldo? Será que vão conseguir?

— Não sei, nunca sabemos! Mas uma coisa lhe digo, você percebeu que parece ter havido uma repetição de um padrão de interação? Me acompanha nessa: duas galinhas ficam juntas, uma vai pro canto, abre a asa, outra salta no puleiro, e de lá sempre algo inusitado acontece. Elas repetiram isso duas vezes até aqui, mas não da mesma forma, foram galinhas diferentes e locais ligeiramente diferentes, Silva.

— Você tá ligeiro, hein, Arnaldo? Parece mesmo que podemos dizer que isso se repete. Como chamam mesmo os especialistas?

Cloning, Silva. É o que, por exemplo, os cupins fazem para construir aqueles incríveis cupinzeiros. Eles repetem o que seus vizinhos fazem com uma leve taxa de variação. A variação é sempre uma espécie de erro da cópia, digamos assim. Mas é essa variação que permite a construção desses incríveis feitos arquitetônicos pelos cupins.

— Arnaldo, olha só, do outro lado, a ponta da enxada parece ter mexido em alguma coisa, tá saindo formiga pra caramba dali.

— Agora a coisa vai ficar boa. Parece que elas não perceberam… perceberam… não, peraí… sim, sim, ficaram loucas, estão cercando as formigas, vão fazer a farra.

— Ah, mas aí elas não vão querer sair mais.

— Maricota chega junto das formigas. Enquanto isso, elas vão explorando o local, é formiga pra todo lado. Maricota abre as asas, sente a ponta da enxada, Ricota salta, mas não vai pro puleiro, ela caiu sobre a tela semidobrada que estava meio solta, e despenca pra dentro novamente, Nicota vai para as formigas, bate na Maricota, cada um vai pra um lado, Nicota abre as asas, Maricota salta pro puleiro, Ricota vem cercar as formigas que já começam a criar um caminho, Nicota salta pro puleiro, bate na Maricota e salta de novo, cai sobre a tela dobrada. Ai ai, Silva, isso tá ficando frenético!

— Arnado, veja lá. Parece que a tela soltou mais um pouco com essa bagunça.

— É uma bagunça mesmo, é caótico, mas só vemos dessa forma porque tendemos achar que as coisas só se resolvem com organização, e, dessa forma aparentemente caótica, só enxergamos organização emergente depois que ela aconteceu, e não durante o processo. Pode relaxar, Silva, pode relaxar e confiar, que parece que vai sair!

— Agora, Maricota desce do puleiro e cai sobre o pau da enxada, parece observar a Ricota e Nicota agora se divertindo com as formigas. Vão seguindo elas. Ambas sobem no cabo, estão as três ali, Arnaldo. O que será que vem a seguir?

— Veja, elas parecem observar as formigas indo pra fora do galinheiro, Silva. Mas que coisa interessante. Olha! Ricota desce, volta pro cabo, salta pro puleiro. Maricota salta pro puleiro! Nicota desce e bate o bico na tela rente a porta do galinheiro, ela quer chegar nas formigas, Silva! Maricota bateu com tudo na Ricota, espantou ela em direção à tela dobrada, Ricota saiu! Ricota saiu! Nicota volta pro cabo da enxada. Maricota desce junto às formigas. Pula no cabo, Nicota sobre pro puleiro, Maricota vai junto, se desequilibram, maricota vai cair, vai cair, bate as asas e, Maricota saiu pessoal! É mais uma galinha que… peraí! Foi a Nicota! Todas saíram, Silva! Todas saíram!

— Pois é incrível mesmo. Quando é pra sair a solução, ela acontece de uma vez para todos ao mesmo tempo. Parece que cada galinha realmente fez parte da construção desta inteligência, se é que podemos chamar assim.

— Agora fica nossa reflexão, novamente, Silva. Emergiu uma inteligência coletiva, ou elas saíram por acaso? As opiniões sempre conflitam por aqui. Elas tiveram que memorizar algo pra sair, ou a aprendizagem, se ocorreu, foi de outra forma? Aprender é se adaptar às circunstâncias ou guardar e interpretar informações? Depois de dois anos neste experimento, Silva, temos que começar a rever muita coisa tida como resolvida por aí…

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