Existiria uma sala de aula mais humana?

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Aprender
22 de dezembro de 2016

Parece um contra-senso. E é.

A escola, este subproduto da revolução industrial, que roda o malware do ensinamento criado há mais de cinco mil anos pelos sumerianos (até onde pudemos chegar na história), não foi criada para nos humanizar, mas justamente o contrário.

Neste breve texto não vou explorar os conceitos de ensino versus aprendizagem, mas sim o aspecto humanizante (ou, melhor, desumanizante) da escola, e quais seriam caminhos possíveis para amenizar isso.

Como pode ser humanizante espaços que, uns mais outros menos:

  • São verdadeiros ensinatórios e não espaços de aprendizagem;
  • Separam as pessoas entre aquelas que não sabem e as que sabem;
  • Outorgam poderes para “aqueles que sabem”;
  • Instituem uma modo de regulação meritocrático;
  • Resolvem conflitos com base em punições (morais, sociais, físicas, intelectuais);
  • Massacram a pessoa com provas;
  • Desestimulam a colaboração (em vários aspectos, incluindo a “cola”);
  • Promovem a competição (na crença equivocada de que é ela que estimula o desenvolvimento, e não a colaboração);
  • Acabam com a vida social da pessoa (seu único respiro de liberdade) preenchendo todos os espaços dela fora da escola com atividades, trabalhos, leituras, tarefas etc;
  • Acreditam que socialização ocorre entre pessoas da mesma idade e do mesmo “grau de instrução”, e que fora disso atrapalha sua inclusão social;
  • Forçam todas as pessoas a serem ensinadas da mesma maneira, como se a história de todos, suas aptidões, seus talentos, até mesmo seu cérebro, fossem exatamente iguais;
  • Desestimulam qualquer interesse que não seja o da matéria do dia;
  • Não estimulam outros talentos que não os exigidos para a mão-de-obra futura;
  • Criam verdadeiras prisões (são inspetores, muros, vigias, porteiros, arames, cercas elétricas, câmeras) sob a justificativa de segurança;
  • Se isolam da comunidade, dos vizinhos, das praças, dos bairros, fechando-se em seu próprio mundo ensinatório;
  • Organizam as pessoas em fileiras, para assistir a oratória de “quem sabe”, para se locomoverem de um local pra outro;
  • Proíbem a livre-conversação entre as pessoas.

Sim, a lista é longa. Poderia continuar muito mais aqui. Com certeza, você também poderia. Só que tem muito mais… E os professores? Claro, a figura do professor como conhecemos é uma outra criação aberrante em relação ao humano, mas são pessoas tão massacradas quanto as crianças e adolescentes. Convivem em uma espaço espaço cuja topologia física e social reproduz comportamentos muitas vezes contraditórios ao que sentem, sim, naquele humano que está asfixiado dentro de si. Sabe o que quero dizer? É aquela cena da sensacional série MARCO POLO produzida pela Netflix (se não viu ainda, SPOILER do T02E02) onde Kublai Khan se vê obrigado a assassinar a criança-príncipe Zhao Xian que ameaçava seu império. Veja ou reveja, e entenderá como o ambiente é o principal influenciador do seu comportamento.

MARCOPOLO07

Me pergunto: que porra é essa? Caralho! Que porra é essa? Como pudemos por tanto tempo justificar a existência desse espaço doentio chamado escola?

Neste ambiente, temos exatamente tudo para nos desumanizar. Existem muitas outras escolas e didáticas hoje em dia, ditas mais “humanizantes”, mas o que não se percebe é que, por mais boa vontade que haja, tudo continua ocorrendo dentro da escola e da deformação social que a escola cria dentro do seu ambiente. Por isso que não adianta incorporar tecnologias ou metodologias inovadoras se não mudar a forma com que tal “escola” está organizada, ou seja, como correm os fluxos, como se dá as relações entre as pessoas, os níveis de liberdade (ou seja, de distribuição da organização) entre todos. Não dura. A não ser que diretores e coordenadores queiram manter um pseudo-status de “inovadores” ou “contemporâneos” e maquiam tal novidade, quando na verdade, nada mudou. Continuam replicando os mesmos comportamentos, os mesmos problemas de sempre.

O medo e o desconhecimento de que sim, pode.

Como mudar? Eu tenho vários amigos que atuam em escolas e universidades. Converso sobre tudo isso com eles. São professores, coordenadores, diretores, mantenedores, faxineiras, alunos, formandos, mestrandos, doutores, e digo uma coisa, são raros os que não querem uma mudança, que não sentem uma necessidade de transformação, que não sentem que tem algo muito errado com tudo isso. Então falamos sobre como mudar. E nos barramos em duas coisas, a primeira, é medo, sim. Medo de perder o emprego, de querer mexer no time que está ganhando, medo de sofrer algum tipo de pressão, enfim, sabem que mexer neste monstro é algo delicado. A segunda coisa, é desconhecimento mesmo. As pessoas estão há tanto tempo repetindo a mesma forma de fazer as coisas, que não se perguntam se poderiam fazer diferente. E podem. E talvez este seja um caminho mais adequado para envolver mais pessoas numa possível transformação. A legislação brasileira nos permite várias coisas, quem não permite são as visões limitadas das pessoas que, nos seus pequenos poderes burocráticos, não conseguem aceitar que tudo poderia ser diferente, já há muito tempo.

Há poucos anos atrás cheguei a fundar uma escola infantil. Foram meses de trabalho com um grupo de pais estudando e conversando sobre como poderiam ser as coisas. Criamos uma escola democrática, e para isso tivemos a ajuda pessoal do José Pacheco, que auxiliou todos principalmente a compreender como um modelo de uma “escola” muito mais livre poderia ser feito, sem deixar de cumprir em nada com a legislação brasileira. Não era bem o que acreditava, o que via como ideal, mas era um meio termo aceitável para aquele momento da minha vida e para de todos aqueles pais. Quem se interessar, indico fortemente que procurem o Projeto Âncora, o José Pacheco e a Clauu Correa, que darão toda assessoria necessária, como a que tivemos. Bom, a escola democrática não existe mais, transformou-se em uma escola inspirada na metodologia waldorf. Eu e os pais envolvidos sofremos um “golpe de escola” e simplesmente fomos obrigados a nos afastar. História pra um outro texto…

O que fazer?

Toda pergunta já nasce com sua resposta

Gostaria de concluir este texto com algumas perguntas e sugestões, que talvez possam ajudar a enxergar e fazer diferente:

  • As crianças podem aprender sem serem ensinadas?
  • Como criar um espaço que estimule a livre-aprendizagem e a busca pelos seus interesses?
  • Como aqueles que sabem e os que não sabem poderiam conviver sem aparentar tais diferenças?
  • Qual a diferença entre reconhecer o mérito e uma regulação meritocrática?
  • Como podemos resolver conflitos sem punir?
  • Que outras formas existem de avaliar uma pessoa ou seu aprendizado sem uma prova individual?
  • Poderia haver uma relação de ensino ou heterodidata apenas se for e quando for solicitada pelo outro?
  • Pessoas da mesma idade poderiam avaliar seus amigos?
  • Como estimular o alterdidatismo, que cada criança aprenda com outras?
  • Um ambiente de aprendizagem é mais rico se pessoas de qualquer idade convivem juntos, sem separações de qualquer tipo?
  • A liberdade estimula a colaboração entre as pessoas?
  • Os interesses que surgem poderiam ser transformados em grupos de projeto?
  • Como o acesso irrestrito à internet, celular e outras tecnologias poderiam ajudar no processo de auto-didatismo e compartilhamento de conhecimento e experiências?
  • É preciso organizar a auto-organização?
  • Eu já permiti o surgimento da auto-organização verdadeiramente?
  • Posso ter um espaço aberto sem horários fixos de entrada e saída?
  • Aprendizagem significa apreensão de conteúdos pré-estabelecidos?
  • Preciso cumprir com um roteiro anual de conteúdos ou isso pode ser feito de outra maneira?
  • A criança pode escolher o que e quando deseja aprender qualquer coisa?
  • Como poderia envolver talentos e conhecimentos da comunidade para trocarem experiências e aprendizados que não aqueles já encontrados entre as pessoas deste espaço de livre-aprendizagem?
  • Todos se sentiriam mais seguros com mais e mais restrições e regras ou com a possibilidade de abertura e inclusão da comunidade interna e do entorno no contexto?
  • Como a livre-conversação entre as pessoas estimula o aprendizado?
  • É possível aprender fazendo festas, dançando, cantando, namorando, colaborando, compartilhando histórias, com ajuda-mútua, caminhando, observando, brincando?

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