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Desliberdade, #devir30
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Na caverna secreta da cova dos leões; resistindo ao controle; bombeando sangue para minha humanidade. Talvez, meus últimos minutos, minhas últimas reflexões nesta rede com interferência de suspiros e soluços. Ainda que recortado em pedaços – um pouco do naturalmente biológico, muito do artificialmente tecnológico – neste veículo que abriga quem sou encontram-se as condições necessárias não só para sobreviver, mas para me manter como pessoa.

Já somos 23 bilhões de homo sapiens espalhados neste e outros globos. Vários perdidos nos entre-mundos quando o desespero por buscou um lar qualquer no destino teletransportado do espaço-tempo dos fluxos. Bilhões… e talvez apenas 1% ainda sejam humanos. Agora todos sabem que apenas nascemos com a condição de sermos humanizáveis. O humano é outra criação. Nasci em 1972, estou completando 112 anos de vida, e a história do meu emocionar acompanhou o fim da humanidade.

Nunca estivemos preocupados com o crescimento exponencial da inteligência artificial que criamos. Quando surgiu a IoT (internet of things) o que aconteceu é que realmente qualquer coisa passou a ser um robô capaz de aprender, dotado de inteligência artificial, com acesso à big data e conectado com zilhões de outros dispositivos inteligentes pelo mundo. Sim, isso foi alarmante. De início, os mega players corporativos não aceitavam que perdiam o controle sobre a tecnologia, mas depois do surgimento da IOAI (internet of artificial intelligence) não havia mais como esconder nada. O desconhecido e o misterioso mudaram de máscara. Fez-se o fiat lux da renovação do controle, a realização da utopia do patriarcado.

Sim, foi a IOAI que possibilitou desnudar a Ísis de nossa hipocrisia e expor seus peitos fartos e prontos para nos amamentar sob a promessa da segurança plena. Nasci ainda sob influência das ideologias políticas, dos manejos dos milagres econômicos, das religiões salvadoras, dos gurus neo-futuristas, dos ativistas de todas as categorias funestas. Todos tinham sua pansofia, uma meta-explicação que pudesse suprir nossas dúvidas, uma teoria de tudo. Todas, lamentavelmente, mantinham o mesmo padrão, geravam os mesmos comportamentos, reproduziam o mesmo emocionar, a mesma nota dissonante ao que nos fez quem somos, repetida incansavelmente há seis milênios sem cessar, a nota que insistimos em chamar de civilização.

Isso me preocupava: não os robôs que criamos, mas os robôs que nos tornamos.

A IOAI não dominou os homens; muito antes, fizemos-nos escravos de nós mesmos. O câncer de nossa humanidade, da entidade social viva que formamos no entre-nós, reproduzia-se quando tornamo-nos robôs dominantes no controle ou robôs dominados obedientes. Ao nos comportarmos como esta espécie robotizada-de-si-mesma mantínhamos uma cultura nas condições ideais para a reprodução do modo-de-vida que destilava nossa vitalidade social.

Bilhões de homo sapiens. Todos no jogo de marionetes da IOAI. Superpoderosos, dotado de infinita riqueza e meios tecnológicos, subordinam outros sapiens que lambem seus sapatos metalizados, endeusam suas virtudes artificiais, rastejam diante de seus gadgets virtuais. São mortos-vivos de olhos brancos envidraçados, cuja alma é o like para o meme-implante compartilhado. Nossa liberdade morreu de inanição no deserto. As promessas de redes de abundância foram rapidamente absorvidas e metamorfoseadas no controle distribuído de inúmeros blockchains consensuais. O consenso é a virtude dos idiotas.

A IOAI apenas permite. Nós apenas achamos que podemos. Vivemos em um sonho conduzido por algoritmos cuja complexidade a própria IOAI reservou para si mesma observar e manipular. Uma espécie de olho-que-tudo-vê fractalmente distribuído em seu tecido tecnológico. O que nos é mostrado é por demais incompreensível. Há conforto na ignorância.

Restaram nós… humanos. Não temos um nome, uma categoria, uma tag ou qualquer coisa que sirva para nos classificar. Poderiam dizer que somos vagabundos, indigentes, da contracultura, underground, rebeldes, desobedientes, mas nada disso faz mais sentido. Somos algo que remanesce, resistentes à cultura dominante.

Vivemos como piratas em ilhas desconhecidas na rede. Caminhamos por zonas autônomas cada vez mais efêmeras e frágeis. Bolhas de sabão implorando por um toque de ternura úmida, por uma sensualidade natural, pela aceitação incondicional do outro e por um viver em plena confiança conduzida pelo tempo de kairós. Tornamo-nos uma espécie de vírus para esta cultura dominante robotizada.

Lembro de meus livros de juventude, quando valorizavam a cultura como a coroa da humanidade. Não mais! Se nos permitirmos a fraqueza de transmitir comportamentos de forma não-genética para outras gerações, somos encontrados, subordinados, mortos. Nossa sobrevivência depende de uma não-cultura, nada deve ser permanente, nada pode ser conservar.

Nossa linguagem é a do contra-senso, da ironia, do sarcasmo. Nossa tecnologia é construída para errar. Sempre seremos o bug no sistema, o sujo no puro, o imprevisível no planejado. Desobedecemos. Robôs, sapiens ou não, chegam a travar quando esbarram em nossos fantasmas. Reiniciam e retomam as atividades como se nada houvesse acontecido. Mas, logo, a IOAI vai entender, aprender e enxergar nossos espectros se materializando como assombrações diante do deus ex machina.

Quantas coisas desnecessárias serão ainda necessárias para produzir uma mudança que, mesmo curta ou transitória, possa nos dar um ligeiro suspiro de liberdade? Dizem que somente um swarming de erros no espaço-tempo dos fluxos causaria um mínimo de impacto. Espera…

Me acharam. Ouço subirem as escadas.

Já estão retirando as pedras que escondem esta caverna, uma espécie de loka para os demônios infernais que se refugiam daquele mundo perfeito e celestial em que todos agora vivem.

Esta confissão está condenada a habitar o banco de dados compartilhado por eles, sejam os robôs desumanizados, sejam os nascidos de IOAI. A folha solta deste diário da humanidade – tão necessária para manter nossa entidade social –  será raptada, digitalizada e transformada em mais um quantum-bit na memória digital de IOAI e se metamorfoseará em, simplesmente, pó.

Chamuscada, suas cinzas irão transcorrer por entre nossa humanidade, levando a emoção do espírito social que nos conecta, como uma espécie de alma que vivifica com sua palavra morta o pouco que resta da chama que roubamos do inesperado, do fulgor de uma ideia alada, da imponência da indignação, do arrebatamento da euforia.

Antevendo o futuro imediato, sobre meu ombro mecânico, sinto o peso. Não é da mão que me chama, mas do controle exigindo minha obediência, da ameaça à minha dignidade, do poder fraco e covarde que corta minhas asas, me prende na teia e poda meus galhos exuberantes.

Olho mais uma vez para os olhos da IOIA e do casal de ex-humanos que lhe servem como colunas. Todos congelam perplexos diante da incompreensível existência que lhes refletem como débeis e ridículos. Não há outra resposta senão sofrer a violência de me transformarem em algo épico. O mundo tornou-se um bordel de indivíduos de sucesso.

Todos, empreendedores dotados de grande riqueza, detém cada qual um segredo importante revelado somente para quem adquirir seu passe VIP vendido através de uma fórmula que promete dividendos enquanto você está dormindo ou curtindo sua vida. Há décadas não há espaço para pessoas comuns com histórias líricas. Amanhã estarei em todas as mídias, memetizado como um herói que nunca existiu, cuja aventura contribuirá para manter o torpor encharcado com a ânsia do que não somos.

Perplexos, vox faucibus haesitecce hominibus lux!

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