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Maia – O que é escola?

Êutica – É o lugar onde você aprende.

Maia – Mas a escola é um lugar?

Êutica – Como assim?

Maia – É um determinado lugar que faz a escola?

Êutica – Ah, acho que não. Pode ser em qualquer lugar onde existam professores, alunos, matérias, essas coisas.

Maia – Então é possível existir escola independente do lugar, correto? Pode existir escola na sua casa, no sítio, na floresta, no hospital, no trabalho?

Êutica – É, desse ponto de vista, o que faz a escola é uma estrutura, um modo de funcionar, onde sempre tem alguém que ensina e alguém que quer aprender.

Maia – Eu também acho. Mas tudo que se ensina na escola é algo que se quer aprender mesmo?

Êutica – Ah não, o que você aprende já está definido em um currículo que é obrigatório os professores ensinarem aos alunos.

Maia – Então escola é ensinar para alguém algo que é obrigatório, e não necessariamente algo que a pessoa deseja aprender?

Êutica – É, mas é muito importante elas aprenderem isso, pois sabendo das coisas que se ensinam na escola é que se pode compreender melhor o mundo e termos condições de melhorarmos nossa sociedade.

Maia – Mas quem é que definiu isso?

Êutica – Os professores, ou os especialistas em ensino das várias matérias. Cada um sabe como o mundo funciona na sua área e o que é importante saber.

Maia – Cada um sabe ou eles sabem por nós?

Êutica – Eles sabem muito mais do que nós.

Maia – Então quem sabe mais do que nós tem poder para definir o que devemos fazer com nossas vidas?

Êutica – Não né? Eu faço o que quiser com minha vida.

Maia – Mas onde você passou a maior parte do tempo de sua infância e juventude?

Êutica – Sim, foi na escola. Mas é obrigatório estudar, senão você não é ninguém.

Maia – Mas você escolheu o que queria fazer da sua vida ou foi obrigado a passar a maior parte do seu tempo sendo ensinado?

Êutica – Não, eu estava lá aprendendo.

Maia – E estavam lhe ensinando o que você queria aprender ou o que os especialistas definiram que você devia aprender?

Êutica – Sim, mas e daí? Como eu poderia aprender se não fosse na escola?

Maia – Mas o que você aprendeu na escola? Você lembra de tudo que lhe ensinaram?

Êutica – Claro que não! Lembro quase nada! Mas é porque eu não preciso usar aquelas coisas no meu dia-a-dia. Outras coisas que são cotidianas pro meu trabalho eu lembro.

Maia – Então aprender na escola significa ser capaz de reproduzir o que foi ensinado e ser capaz de lembrar disso depois.

Êutica – É.

Maia – E se isso não fosse aprender?

Êutica – Como assim? Se eu entendo e lembro é porque aprendi.

Maia – Então robôs podem aprender melhor que você? Pois eles podem reproduzir exatamente o que lhe ensinam sem perder a memória.

Êutica – É, robôs poderiam sim. Mas acho que robôs ainda não aprendem, eles só repetem.

Maia – Pois é. Se a gente pensar que robôs apenas reproduzem um ensinamento, isso que é ensino?

Êutica – Pode ser, mas bem que eles foram programados pra fazer alguma coisa né?

Maia – Exatamente. Será que na escola estamos sendo programados através do ensino para fazer alguma coisa?

Êutica – Não é bem assim, mas podemos pensar que somos preparados para a sociedade.

Maia – Uma sociedade inteira que passou pela escola, correto? Que foi toda escolarizada para pensar a partir dos mesmos pressupostos.

Êutica – É, e quanto mais escolarizada é a sociedade mais sucesso temos.

Maia – Mas isso não é confundir o processo com a substância?

Êutica – Não entendi.

Maia – Se pensa que quanto mais longa a escolaridade de alguém, melhores são os resultados. Os mais graduados, são as pessoas de maior sucesso. Então confundimos ensino com aprendizagem, “passar de ano” com educação, diploma com competência, fluência no falar com capacidade de dizer algo novo.

Êutica – É verdade. Tem muita gente com faculdade e até pós-graduação por aí que são uns tapados. Não sabem nada. Mas acredito que isso é porque a qualidade do ensino é muito ruim, piorou muito de uns anos pra cá.

Maia – Então os problemas da escola se resolvem melhorando a escola?

Êutica – É claro! Os professores deveriam ser muito bem pagos, as escolas deveriam ter uma estrutura mais decente, deveríamos ser mais rígidos na instrução, cobrar mais dos alunos.

Maia – Então aí lembraríamos melhor do todo currículo obrigatório que nos foi ensinado, não é mesmo?

Êutica – Qual o seu problema com a escola?

Maia – Meu? Nenhum. Mas me parece que você tem, não um, mas vários problemas com a escola.

Êutica – Eu?

Maia – Onde você estudou?

Êutica – Na melhor universidade do país, graças a deus eu passei lá.

Maia – E você trabalha hoje na sua área?

Êutica – Você sabe que não Maia! Na minha área só contratam por indicação, pelas questões de confiança e tal.

Maia – Mas essa não é uma questão importante pra contratar pessoas de qualquer área?

Êutica – Sim, mas não mão-de-obra barata, chão de fábrica. Meu cargo exigiria, muito além de conhecimento, confiança na pessoa, conhecer sua procedência. No fim, pessoas muito piores qualificadas que eu estão exercendo uma função para a qual me preparei a vida inteira.

Maia – Mas as pessoas que contratam não são ainda mais graduadas que você, e tais pessoas não deveriam fazer uma sociedade melhor?

Êutica – É, deveriam, mas a vida não funciona assim.

Maia – Pois é, normalmente a vida funciona mesmo de uma maneira diferente da qual imaginamos. É imprevisível, e passa por injusta, não é mesmo?

Êutica – Maia, daqui a pouco preciso desligar, tenho que fazer minha via sacra.

Maia – Ah é, pegar o Pedro na escola, almoçar, levar a Simone pra escola dela. Levar o Pedro para escola de natação. Depois você vai pra sua escola de inglês. Pega o Pedro na natação. Vai pra reunião de pais. Deixa o Pedrinho no parquinho da escola, porque tem um porteiro que não vai deixar ele sair e assim fica em segurança. Na reunião devem falar sobre a importância de pegar os filhos no horário e da possível recuperação da Simone…

Êutica – Ai, para com isso Maia, você está me deprimindo.

Maia – Aí em casa você discute com o Luis pois terão que remarcar a viagem de fim de ano por causa da recuperação. O Luis, mais frustrado que nervoso diz que já desmarcou, pois seu chefe disse que este ano ele não poderia sair de férias naquele mês. No dia seguinte, você levanta o Pedro mais cedo da cama que, mal humorado, escuta que você levou uma chamada da escola dele por sempre chegar atrasado. Você não tem tempo de tomar nem seu café, vai correndo sair pra escola e ao tirar o carro da garagem quebra o retrovisor.

Êutica – Hahaha, seria cômico se não fosse trágico, e verdadeiro!

Maia – Mas não acabou né? Pois você precisa deixar o Pedro e voltar logo pra dar o café da Simone e levá-la para a escola de ballet. Então é pegar a lista de materiais e sair comprando tudo. O Luis no seu pé pra não gastar muito. Ele nem lembra que ainda tem o uniforme obrigatório, da escola do Pedro, da Simone, as toalhas da natação, a roupa do ballet, a fantasia da apresentação do fim do ano que já vai sendo paga parcelada, as apostilas da escola de inglês. O Luis acha que só trabalha pra pagar as várias escolas dos filhos. Mas vale a pena o sacrifício, eles terão uma vida melhor que a de vocês, pois a vida funciona assim, não é?

Êutica – Ahhhh, cansei! A vida é uma droga!

Maia – A vida não. Mas uma vida escolarizada.

Se despedem, desligam o telefone. Êutica, por um momento que foi como um flash, de repente percebeu que todos seus problemas, todas as discussões familiares, com seu marido, com seus filhos, ocorrem em virtude da escola. Suas exigências e obrigatoriedades se transformam em uma maneira de guiar a vida das famílias, sob a abstração de uma autoridade herdada culturalmente. Num glance percebe como a simples existência da escola cria todas as demandas em torno dela, e suprime todas as outras possibilidades de convivência e aprendizagem que poderiam existir. Percebe naquele momento fugaz, como a escolarização está presente não apenas na escola de seus filhos, mas em praticamente todas as instituições que frequenta, direcionando sua vida, tirando sua autonomia, escolarizando ela até os dias de hoje. Entende, em um instante, como seus problemas não estão na escola do Pedro ou da Simone, mas em uma estrutura e dinâmica que são como modelos genéticos de todas as instituições que frequenta. É também a escola de inglês, de ballet, a escola que seu marido chama de empresa, a escola que chama de prefeitura, de banco, de internet, a escola no seu programa de TV favorito, a escola da família escolarizada…

– Mãe, estou pronta! – fala Simone.

O momento se desfaz. O flash que relampejou dentro dela aguarda um possível trovão, quem sabe? E a Êutica segue, levando sua filha, Simone, para a escola.

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