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Odã nasceu no continente africano. Certo dia, estando junto com seu pai cuidando das plantações, recebeu uma visita inusitada. Nando, como Odã, tinha apenas 8 anos, e estava com sua família americana fazendo uma viagem àquela savana. Enquanto suas famílias conversavam, Odã e Nando, tal como qualquer criança, logo se enroscaram em brincadeiras e travessuras.

Um velho ancião, debruçado sob a sombra de uma árvore com seu cachimbo de barro, apenas observava e se divertia com os tombos, gargalhadas e gritarias. Levado pelo aroma da sua erva e inebriado pelas formas sensuais do fumo, o ancião foi tomado por um movimento para o qual as regras do tempo, dos nascentes e poentes, não valiam de nada.

E viu Odã crescer. Odã não fez escola, dessas onde as crianças são obrigadas a ir e os pais obrigados a mandar. Felizmente ali ainda não havia se levantado este mal. Odã estudava em todo lugar, fazendo qualquer coisa, porque a necessidade de aprender é viva em Odã, no ancião e em toda pessoa.

O ancião viu Nando, emburrado. Lentamente, foi se rendendo à força da instrução, subjugado delicadamente pelas sutilezas e tenacidade da coerção. Esta escola não pensava nas razões do que e por que ensinar, apenas mantinha-se focada na missão divina de entregar mais um membro pronto para o Estado, à igreja, à vida social e ao conhecimento.

Mas Nando teve a oportunidade de, na América, já cursar uma nova escola, uma nova pedagogia, tudo melhorado para o bem da civilização. Subjugada pela ciência transformada em religião, a nova escola resolvia seus problemas históricos e mais uma vez adivinhava as necessidades gerais de todos os Nandos e Odãs do mundo.

Mas Odã, no período mais rico da sua infância, não foi afastado da sua mãe, do seu pai ou dos seus irmãos. Longe da instituição que só fornece respostas, Odã nunca deixou de fazer perguntas, e de buscar alimento para suas dúvidas com os vizinhos, com os amigos, ou mesmo no profundo estado investigativo que vivifica o coração de toda criança. Odã não teve ensino, teve aprendizagem, pois nesta encontrou as respostas que tanto procurava.

Seu amigo Nando foi-se embrutecendo em suas capacidades intelectuais mais humanas. Não podia perguntar. Mais, não podia muitas coisas. E assim foi encolhendo sua alma tal como um caracol escondendo-se em sua própria casca. Este estado escolar, no qual tornou-se exemplar, minou sua imaginação e criatividade para o verdadeiramente inovador, tornando-se prodígio no alongamento de pensamentos já conhecidos, na repetição de padrões estabelecidos, na defesa de ideias pré-concebidas.

O ancião acorda em meio a robôs e máquinas inteligentes. Longe, entre a montanha, um fila interminável de pessoas rangem os dentes em perdição, maldizendo a vida que os excluíram do pensar e do fazer. Nando chora. Um rajada de diplomas das mais renomadas universidades, relâmpagos iluminando as marcas das maiores potestades empresariais, cruzavam a histórica alma de Nando que se tornou imprestável diante dos avanços da inteligência artificial que ele mesmo contribuiu para construir.

Dois toques no ombro, e o ancião vê Odã. Ainda feliz, olhos de menino, vivos a imaginar o que não poderia ser, inventar tudo quanto não foi, descobrir o óbvio como dádiva.

Atrás de Odã, cenários fantásticos intermináveis se mesclavam enquanto falava. Odã não fez escola, era livre daquela civilização de robôs formados por homens e máquinas. Odã mantinha a humanidade viva, caminhando por entre tempestades e relâmpagos, intacto e invisível como quem sopra bolhas de sabão para criar novos mundos.

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