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Juvêncio dizia sim pra tudo. Conhecido como uma pessoa super gentil, estava disposto a fazer coisa sempre. Não gostava de decepcionar as pessoas. Sempre evitava discussões, não gostava de violência.

Juvêncio era um otimista nato. Via em tudo que acontecia o lado bom das coisas. Pensava no quanto qualquer coisa ruim poderia ter sido muito pior. Acreditava que o universo conspirava a seu favor e que tudo que aparecia à sua frente era um presente.

Juvêncio era esse tipo de pessoa idiota. Querendo agradar a todos, acabava destruindo aos poucos seu maior patrimônio: seu corpo. Vivia estressado, com aquele sorriso trouxa na cara mas em pleno estado nervoso internamente, não dormia direito, vivia preocupado com os problemas dos outros, assumia responsabilidades que não lhe diziam respeito, comia mal (quando comia), encarava pedidos do seu chefe na sexta à tarde para entregar no mesmo dia, desmarcava momentos preciosos com suas filhos, com sua companheira, e nunca, nunca tinha um momento para si que pudesse ser tido como ócio, tedioso ou ainda desnecessário.

Juvêncio era esse tipo de pessoa idiota. Eu também.

Nesta de querer agradar, certo dia vi uma pessoa correndo da chuva. Parei o carro ao lado e ofereci carona. Acho que ela reconheceu minha cara de bundão e talvez tenha pensado que nem daqui mil anos eu poderia ser uma espécie de estuprador ou assassino. Quando ela entrou no carro tive a certeza. Não foi nas minhas bochechas e no meu sorriso amarelado que ela confiou, aconteceu esse troço que chamam de amor à primeira vista.

Casamos. E a Carla mudou completamente minha vida. Nunca entendi como demos certo. Éramos completamente diferentes. Ela dizia-se realista, mas na verdade era uma pessimista de mão cheia. Falava que esperava o melhor, mas se preparava para o pior… Imagine! Porém, ela abriu meus olhos para as coisas importantes da vida. Ainda mais quando a minha saúde, tal como a do Juvêncio, começou a pedir água.

Percebi o quanto eu era escravo de minhas escolhas. Simplesmente porque eu não fazia escolhas, e quando você não as faz alguém escolhe por você. O problema é que fazer escolhas, para mim, significaria me fechar às oportunidades que o universo oferece à minha vida. Eu deixaria de ver tudo como um presente para dizer não e escolher somente aquelas cujos caminhos me conduzem ao que é essencial para mim: minha saúde e mais momentos com aqueles que amo e me amam.

Ela me fez perceber o quanto precisava disso tudo. Principalmente, ela me fez perceber que aceitar tudo o que fluxo da vida me oferece não me torna uma pessoa mais livre, mas sim, ainda mais presa e limitada. O modo que opera nossa relações sociais hoje não são nada sadias. Estão contaminadas há milênios por uma cultura baseada na guerra, no inimigo, na competição, era minha vida. E aceitar este jogo de uma maneira otimista não mudava o resultado, apenas me fazia mais idiota mesmo.

Era um covarde. Me faltava coragem para escolher, para ter autonomia, para dizer não.

O primeiro passo foi ter esta clareza do que é importante para mim. Sem isso me sentia desprotegido. Qualquer situação externa logo me levava de volta para a vida doentia que tinha.

Depois, o mais difícil foi me livrar da culpa. Eu queria ser aceito socialmente, sou humano, poxa! E dizer não me fazia sentir muito desconfortável. Não queria deixar ninguém na mão, sempre queria ajudar. E o primeiro não que eu disse foi como um grito de liberdade. Foi uma vitória este primeiro não, claro, mas logo em seguida fiquei muito mal, óbvio.

Porém, descobri duas coisas na semana seguinte. Meu medo de desapontar ou irritar os outros era exagerado. E aconteceu uma mágica: eu passei a ser mais respeitado. E que sentimento nobre foi esse! Acho que nunca havia me sentido assim antes.

Aí embarquei. Ao dizer não, foi ficando cada vez mais claro que eu negava a solicitação específica, e não a pessoa. Além disso, consegui aperfeiçoar muitas maneiras de dizer não.

“Eu não posso, mas talvez o Juvêncio se interesse” – haha, que sacanagem com ele. Mas aprendi a negar algo já indicando alguma pessoa que sabia que poderia aceitar.

Quando algum amigo pedia para vir em casa (moro em uma cidade turística) e eu tinha já marcado um passeio com minha família, eu dizia que se quisesse vir deixaria as chaves para ele retirar, mas não deixava de fazer o que era importante para mim.

Às vezes simplesmente respondia com alguma piada! Era o suficiente para a pessoa entender meu não.

No meu emprego, quando meu chefe me pedia novos trabalhos, era delicado, rs. Mas eu perguntava à ele o que o eu deveria deixar de fazer em troca, ou ainda dizia que não conseguiria fazer o que pediu muito bem por conta das outras prioridades. Ao fim, sempre conseguia negociar o que fazer e o tempo para tanto.

Aprendi também a negociar mensagens automáticas de email. Me ajudavam não somente quando estava ausente, como usam normalmente para viagens a trabalho ou férias, mas também quando eu estava imerso em algum projeto importante que precisava da minha total atenção.

Havia ainda algumas saídas que não gostava muito de usar, aquela história de que “sim, mas deixa eu ver minha agenda e lhe retorno”. Ou ainda, quando eu negava a solicitação naquele momento em virtude de minha ocupação atual, mas pedia para nos falarmos novamente mais pra frente.

Agora, a negativa que mais gostava de usar era fazer uma pausa. É incrível como o silêncio responde tudo. De uma forma elegante e suave, minha resposta ficava implícita e era absorvida muito mais tranquilamente na continuidade da conversa.

Resultado? Aprendi o sentido do Weniger aber besser alemão. Menos, mas melhor. Aprendi a importância de perder para ganhar. E, principalmente, todo o ruído que vivia de forma permanente em minha mente e coração, acabou.

Mudei minha visão da vida, sim. Mas não foi um processo sofrido. Cada passo me preenchia de energia, me empoderava. As coisas que faço hoje são aquelas que realmente importam, sem arrependimentos, sem culpa e com orgulho das escolhas que faço. Com tudo mais simples e claro, não vivo arrependimentos do passado, nem com a ânsia do futuro. Vivo a felicidade no essencial.

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